sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Escalando o Aconcágua

Escalando o Aconcágua

O monte Aconcágua (que significa ‘Sentinela de Pedra’) tem quase 7.000 metros de altitude (exatos 6.962) e é o ponto mais alto das Américas, bem como de todo o Hemisfério Sul e também o monte mais alto fora da Ásia. Fica localizado nos Andes argentinos, perto da divisa com o Chile, a cerca de 112 quilômetros da cidade argentina de Mendoza. Foi dali que segui rumo a minha aventura.

Por ser a montanha mais alta das Américas, todos os anos montanhistas de todo mundo tentam escalá-la. E lá estava eu, aclimatado com o vale do aço (MG) e batendo queixo naquela gélida montanha no final de  dezembro de 1997.

Existem alguns locais para acampamentos para quem deseja realizar a subida da montanha: Confluência a 3.368 m de altitude, Plaza de Mulas 4.370 m – que é o acampamento base. E para quem já está chegando ao Pico, os geladérrimos Nido de Condores a 5.560 m e Berlim a 5.926 m.

Eu, após seguir um dia inteiro a partir de um hotelzinho na estrada entre Mendoza e Santiago, cheguei no Plaza de Mulas.

Da janela do quarto da Pousada (de madeira) avistei a montanha bem de perto: um paredão enorme (de tão grande, não cabe totalmente no campo de visão (a partir do acampamento base).

Voltei à pequena sala com lareira, onde bati um papo gostoso com o Thomas Brandolim, primeiro brasileiro a levar uma equipe de alpinistas ao Everest. Ele me motivou e deu-me algumas orientações básicas.

Outro grande alpinista chegaria ao Aconcágua poucos dias depois, para tentar a difícil escalada pela face sul - era o Mozart Catão, primeiro alpinista brasileiro a escalar o pico mais alto do mundo, o Everest, no Himalaia (juntamente com o Waldemar Niclevicz).

Enquanto refletia, assentei-me junto a esta geleira na base da montanha a 4.500 de altitude.

Enquanto refletia, assentei-me junto a esta geleira na base da montanha a 4.400 de altitude.
 Eu tinha duas opções: passar de sete a dez dias me aclimatando e fazendo pequenas subidas na montanha ou tentar a escalada à italiana (seguir direto montanha acima o máximo que eu ‘pudesse’ e depois descer).

Apesar de sua altitude, o Aconcágua não é uma montanha difícil de ser escalada do ponto de vista técnico, pois para atingir o seu cume pela rota normal não é necessário que o montanhista realize escaladas com rigor técnico.

Passei um dia inteiro pensando na melhor forma e após conversar com vários montanhistas (havia mais de 200 no acampamento base), decidi tentar à italiana.

O desafio que o Aconcágua apresenta é um teste de resistência física, pois o montanhista tem que superar o frio e a falta de oxigênio comum às grandes altitudes.

E lá fui eu, subindo o máximo que podia naquelas condições sempre abaixo de zero. A medida em que subia aumentava a quantidade de neve e gelo pelo caminho.


Dei uma olhadinha para trás e vi as barraquinhas ficando bem pequenininhas até sumirem lá embaixo.

Avancei bastante e rapidamente o frio aumentou consideravelmente. Minha máquina fotográfica era de um modelo bem simples e eu já havia sido alertado da possibilidade dela travar (pelo frio). Bati então algumas fotos para trazer de lembrança.


Olhei para trás (lá pelos 5.200 mts de altitude) e vi um grupo coeso vindo em fila indiana. Eles pareciam muito bem aclimatados, pois passaram por mim sem muita dificuldade.

Rapidamente minhas forças foram se esvaindo. Sentia-me cada vez mais cansado. Neste ponto, eu dava dez passos e descansava uns cinco minutos para continuar subindo.

Achei aquilo tremendamente desconfortável, pois eu estava muito bem fisicamente (antes de subir). Mas a ausência de oxigênio no ar rarefeito estava fazendo seus efeitos claramente.

Sentei-me para descansar. Pouco depois, um montanhista me alcançou e conversou comigo. Aconselhou-me a subir até Nido dos condores (apenas trinta minutos de caminhada acima) ou descer. Agradeci e ele seguiu.

Bati uma última foto.

Comecei a sentir um sono quase invencível. Nesta hora percebi que estava numa situação terrível de hipotermia: eu sentia muito frio e muito sono. As pontas dos dedos das mãos e dos pés (protegidos por uma grossa luva [mãos] e muitas meias [pés]) estavam completamente insensíveis.

Refleti e decidi rápido - eu tinha que descer.

E foi o que fiz.

Em poucos minutos recobrei as forças e o domínio de meu corpo.

Eu levara umas seis ou sete horas para chegar naquele ponto e desci em apenas uma hora e trinta minutos.

Fiquei muito feliz com essa experiência. Aquilo que parecia uma derrota (não avançar para o cume) foi para mim uma grande vitória - eu tinha consciência de meus limites. A montanha continua lá - linda e imponente. E eu continuei minha jornada, sabendo que tinha pela frente outros desafios mais importantes e significativos.

Passei a fazer parte da história da montanha e ela da minha história.


PS. Poucos dias depois de minha partida chegaria a triste notícia do falecimento do Mozart Catão e parte de sua equipe na face sul do Aconcágua.

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