quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O custo Brasil nos Carros


“Custo de produção no Brasil é o menor do mundo e margem é o triplo dos EUA”

É o que diz a reportagem dirigida por Joel Leite fazendo referência ao site blogosfera.

"– Estudo do Sindipeças revela que o custo de produção no Brasil é de 58% do preço final do carro, contra a média mundial de 79% e chega a 91% nos EUA.
– Fabricantes de autopeças revelem em Audiência Pública que o Lucro Brasil é de 10%, contra 5% no resto do mundo e 3% nos EUA.
A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado realizou na semana passada em Brasília audiência pública para discutir os altos preços dos carros no Brasil, com a presença de representantes da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, do Ministério do Desenvolvimento, do Ministério Público Federal, do Sindipeças, o sindicato dos fabricantes de autopeças e deste jornalista..."

(http://omundoemmovimento.blogosfera.uol.com.br/2012/12/13/custo-de-producao-no-brasil-e-o-menor-do-mundo-e-margem-e-o-triplo-dos-eua/)

O site segue fazendo comparações, mas várias perguntas ficam no ar...

Veja:

Custos em Dólares da Produção de um Toyota Corolla e seu Valor Total

Custos de Produção
Impostos
Lucro
Valor Total
Corolla nos USA
14.256,00
1.458,00
486,00
16,200,00
Corolla na Argentina
17.064,00
3.456,00
1.080,00
21.600,00
Corolla no Brasil
16.588,00
9.152,00
2.860,00
28.600,00

As perguntas que o Site, as Montadoras e a Anfavea não responderam até agora:
1. Na comparação feita pelo Site com o Corolla, o lucro do carro vendido no Brasil é, em valores absolutos, quase seis vezes maior que o lucro nos USA do mesmo produto. O site dá a entender de que é apenas pouco mais que o triplo (3% e 10%). Como explicar essa ganância?
2. Como é possível fabricar um Toyota Corolla nos USA por apenas U$ 14.256,00, e no Brasil por U$16.588,00 se os funcionários das fábricas americanas ganham mais que os funcionários das montadoras brasileiras?
3. Os fabricantes brasileiros reclamam muito dos impostos (e devem reclamar mesmo), mas se este valor for retirado da conta, o carro brasileiro ainda será muito mais caro que o americano (U$19.448 contra U$14.742). Como explicar esse alto preço?

Parece que as informações do site não apresentam toda a verdade.  O que leva muitos a imaginar que a margem de lucro no Brasil deve ser bem maior do que a anunciada (deve ser na verdade entre 20% e 30%).

Obs. Os percentuais que aplicamos para a Argentina foram os que o Site forneceu para o “mundo”.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pequenas atitudes que fazem grande diferença




Excelente vídeo realizado pelos meus alunos de Gestão Ambiental sobre o descarte de bitucas de cigarro.

Pequenas atitudes podem salvar o planeta.

Parabéns aos alunos.


http://www.youtube.com/watch?v=g-9F_0PC4mQ&feature=g-upl

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Fantástica e Espetacular Reflexão


O Valioso Tempo dos Maduros
Mário de Andrade



Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Diante de todos nós - O caso da Webjet


Começo com uma observação - a questão não é a legalidade da ação, ou das ações, mas especialmente, a questão moral.

A Webjet era a companhia que praticava (na média) os menores preços do setor aeroviário.

O governo autorizou a GOL a comprar a Webjet. Essa fusão foi autorizada pelo governo. Com base nas previsões dos especialistas para o mercado aeroviário, era normal a fusão, pois a perspectiva é de crescimento da demanda e necessariamente, de companhias aéreas fortes que possam dar conta dessa nova realidade.

Agora, apenas alguns meses após a fusão, a GOL anuncia o fim da Webjet e demite 800 funcionários da extinta companhia (ao todo, eram 1500 funcionários).

Trocando em miúdos: uma Cia Aérea deixou de existir. Exatamente aquela que oferecia os menores custos na compra das passagens aos seus consumidores. As linhas que a Webjet operava pertencem agora a GOL, com a devida autorização do governo. A cia. Webjet não existe mais. Mais da metade do quadro operacional da extinta cia. está desempregado. E nenhuma autoridade governamental aparece para dar explicações.

A GOL deve estar bem. Um concorrente que vendia 'passagens baratas' não existe mais. As linhas que este concorrente operava agora lhe pertencem legalmente. Uma demissão em massa (ou será um expurgo) foi feita entre os funcionários da extinta cia. (se ficaram com os melhores, eu não sei).

???

Não consigo compreender e nem aceitar o que leio e vejo nos telejornais sobre o assunto. Ou eu vivo em outro planeta, ou estou delirando. Se enlouqueceram, não faço parte deste enlouquecimento coletivo.

Que a cia. aérea em questão estivesse com problemas financeiros ou operacionais quando foi comprada, torna-se um detalhe irrelevante quando se examina a história de uma forma global. Afinal de contas, 800 funcionários de um total de 1500 (54%) é um número muito significativo. E outra, cias. aéreas neste país já receberam ajudas em outros momentos...

Depois, tem gente que diz que o capitalismo praticado em terras tupiniquins não é tão selvagem como o americano.

Obs. O que ocorreu neste caso não foi com a CONIVÊNCIA das autoridades. Não foi.

O que ocorreu foi com o completo CONSENTIMENTO das autoridades.

Simplesmente inaceitável.

Se há alguma explicação racional, estou aguardando...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

No Dia Mundial do Guinness Book of Records...


Recordar é viver...

Em junho de 2013 (daqui a sete meses) o "Projeto América do Sul" completará 20 anos.

Éramos jovens, aventureiros e destemidos.



Partimos naquele Opala 1983 para uma longa viagem pelo continente sul-americano lançando uma Campanha Ecológica em diversos lugares: de 27 de junho a 08 de agosto de 1993 foram 43 dias, quase 30.000 kms, calor, frio, neve, chuvas tropicais, montanhas, desertos, burocracia... e muita aventura. No final um recorde no GUINNESS BOOK OF RECORDS que permanece sem ser quebrado. Obrigado amigos Márcio Costa e Rubem Mello. Obrigado Senhor!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A TV e o Comportamento das Pessoas


Se TV não influenciasse o comportamento das pessoas, não haveria por parte dos anunciantes ações de merchandising (anúncios indiretos) e nem mesmo propagandas (anúncios diretos). 

A grande verdade (que alguns profissionais da TV gostariam de negar) é que existem pesquisas suficientes feitas por renomadas instituições (Harvard, Unicamp e Cambridge, para citar apenas os estudos mais recentes) que i
ndicam claramente que a TV influencia o comportamento das pessoas na razão direta do tipo de programação e da quantidade de horas que se passa em frente ao aparelho. 





Mas mesmo para quem não é ligado ao mundo das pesquisas acadêmicas, basta ver a influência da TV em coisas simples. Dou três exemplos: os nomes mais colocados nos bebês que nascem nos períodos das novelas que fazem sucesso; as roupas mais usadas (moda) pelas pessoas em determinados momentos e por último, os termos, expressões, apelidos, 'falas' e até comportamentos adotados pela população. 





A última 'moda' em comportamento é 'ser 'piriguete' - (a internet é cruel na definição desse termo: "mulher fácil, que vai para baladas a procura de todos os tipos de homens, que se veste abusando dos decotes e cores, sexualmente vulgar e escandalosa, que normalmente adora perseguir homens de todos os tipos" - é verdade que essa é apenas uma das milhares de definições).





Fonte da Imagem: revistapontocom.org.br

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Projeto "Bocaina, a Rainha das Trilhas"



Nisia Floresta e a Primeira Escola para Meninas do Brasil


  Em seu livro Patronos e Acadêmicos - referente às personalidades da Academia Norte-Riograndense de Letras -, Veríssimo de Melo começa o capítulo sobre Nísia da seguinte maneira: “Nísia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra”.
     De fato, a história e a obra de Nísia são de uma importância rara. “Infelizmente, a falta de divulgação da obra de Nísia tem sido responsável pelo enorme desconhecimento de sua vida singular e de seus livros considerados de grande valor”, diz Veríssimo.
     A educadora, escritora e poetisa nascida em 12 de outubro de 1810, em Papari, Rio Grande do Norte, filha do português Dionísio Gonçalves Pinto com uma brasileira, Antônia Clara Freire, foi batizada como Dionísia Gonçalves Pinto, mas ficou conhecida pelo pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nísia é o final de seu nome de batismo. Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se casou em 1828, pai de sua filha Lívia Augusta.
     Neste mesmo ano, o pai de Nísia havia sido assassinado no Recife, para onde a família havia se mudado. Em 1831, ela dá seus primeiros passos nas letras, publicando em um jornal pernambucano uma série de artigos sobre a condição feminina. Do Recife, já viúva, com a pequena Lívia e sua mãe, Nísia vai para o Rio Grande do Sul onde se instala e dirige um colégio para meninas. A Guerra dos Farrapos interrompe seus planos e Nísia resolve fixar-se no Rio de Janeiro, onde funda e dirige os colégios Brasil e Augusto, notáveis pelo alto nível de ensino.
     Em 1849, por recomendação médica leva sua filha, gravemente acidentada, para a Europa. Foi em Paris que morou por mais tempo. Em 1853, publicou Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre emancipação feminina, que foi merecedor de uma apreciação favorável de Auguste Comte, pai do positivismo.
     Esteve no Brasil entre 1872 e 1875, em plena campanha abolicionista liderada por Joaquim Nabuco, mas quase nada se sabe sobre sua vida nesse período. Retorna para a Europa em 1875 e, três anos depois, publica seu último trabalho Fragments d’un ouvrage inédit: Notes biographiques.
     Nísia faleceu em Rouen, na França, aos 75 anos, a 24 de abril de 1885, de pneumonia. Foi enterrada no cemitério de Bonsecours. Em agosto de 1954, quase 70 anos depois, seus despojos foram transladados pra o Rio Grande do Norte e levados para sua cidade natal, Papari, que já se chamava Nísia Floresta. Primeiramente foram depositados na igreja matriz, depois foram levados para um túmulo no sítio Floresta, onde ela nasceu.
     Sua mais completa biografia - Nísia Floresta - Vida e Obra - foi escrita por Constância Lima Duarte, em 1995. Um livro de 365 páginas, editado pela Editora Universitária (da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) que, em 1991, havia sido apresentado como Tese de Doutoramento em Literatura Brasileira da autora, na USP/SP.

Fonte: http://www.memoriaviva.com.br/nisiafloresta/

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma Aventura de Carro pelos Caminhos da América do Sul - Capítulo VI


CAPÍTULO VI

ARGENTINA DE NOVO

"Se és capaz de arriscar numa única parada tudo quanto ganhaste em toda a tua vida...". Rudyard Kipling

            Novamente em Gallegos, passamos na casa da sra. Nikolaus, que nos deu um gostoso jantar às 23:00 hs. Conversamos um pouco e saímos dali às duas da manhã para avançarmos para Comodoro Rivadávia. De acordo com o nosso cronograma estávamos um dia atrasados e precisávamos recuperar seguindo direto.
            Para nossa alegria, muita da neve que encontramos  na ida para o Sul, agora havia descongelado e não necessitamos fazer muito uso das correntes. Neste trecho o Binho atropelou um coelhinho "atravessador" de estradas.
            Na nossa rápida passagem por Comodoro, compramos líquido anticongelante e seguimos rumo à Cordilheira dos Andes. Sabíamos que íamos encontrar muito frio.
Um trechinho rural de Bariloche, perto da Cordilheira.
            Uma inquietação reinava dentro de mim: e se o frio da Cordilheira dos Andes for mais intenso do que o que podemos suportar? De início, tudo bem, pois já estávamos enfrentando frio há uns dez dias. Mas eu sabia que o avanço no gelo e na neve seria lento e a nossa experiência nestas situações era apenas de iniciantes.
            Vamos lá, pensei comigo: para todo problema existe uma solução. Poucos quilômetros depois de de Comodoro já começamos a subir. Montanhas e mais montanhas numa sucessão interminável. Assentado no banco traseiro, eu podia contemplar à vontade aquela magnífica paisagem. Lá pelo final da tarde surgiu a pré-cordilheira: altas montanhas, algumas cobertas de neve, outras pelos pinheiros e vegetação de altitude. Começaram a aparecer a nossa frente e a nossa esquerda, pois já tomávamos rumo noroeste.
            A noite chegou e com ela a chuva. Tínhamos receio de que nevasse, embora soubéssemos que não teríamos escolha nos Andes. Evitávamos paradas longas, pois a  simples abertura  das portas esfriava o interior do veículo. A chuva parou, mas em breve retornou trazendo mais frio. Nosso pequeno aquecedor a gás já estava no seu segundo e último bujãozinho descartável. A previsão inicial, segundo o vendedor, é de que ele durasse umas dezoito horas. Mas o primeiro não durou nem seis e isto também nos preocupava. Chegamos em Esquel por volta das nove da noite e nos alegramos, pois dali até San Carlos de Bariloche são apenas uns duzentos quilômetros. Entretanto, a partir daquele ponto encontramos alguns trechos de estradas de terra que iam ficando cada vez mais frequentes e longos, até que esta era a nossa única opção até Bariloche. Inúmeras poças d'agua na esburacada estrada faziam-nos parecer que estávamos em um rali na selva.
  O cansaço já não era muito suportável e para quem estava dirigindo tornava-se cada vez mais importante que o companheiro do lado estivesse acordado. Chuva de novo, e o frio aumentava. De repente surge a temida neve, cobrindo toda a estrada. Neste primeiro trecho foi possível avançar sem correntes. O carro dançava na estrada congelada e a densa escuridão daquelas montanhas só era cortada pelas luzes do nosso farol. Poucas vezes cruzamos com outros carros naquela região. Embora parecesse que seguíamos rápido, a noite se mostrava longa e o nosso alvo mais distante. A neve aumentou e tivemos que parar e colocar as correntes. Nevava muito e o frio fora do carro era insuportável. Quem desceria para colocar as correntes? Antes que começássemos a analisar a situação, o Binho prontamente se dirigiu para fora do carro e foi pegar no porta-malas o instrumento indispensável para aquela situação.
            Mortos de sono, já quase não falávamos nada. Correntes no chão, o Binho manda manobrar o carro: - Um pouco mais pra frente!... Agora para trás!... Tá bom! de novo! Aiii! Um grito de dor. E quase teve a sua mão atropelada. Ficou muito bravo e não vale a pena relembrar os impropérios que o coitado disse com a mão dolorida. Finalmente as correntes ocuparam o devido lugar e saímos dali. O Binho voltou com as mãos quase congeladas. Dava dó. Pegou o aquecedor e aquecia alternadamente as mãos. Depois foi o Márcio, que também batia queixo naquela hora. Usávamos todas as blusas que tínhamos direito e os cobertores também.
            Aí surge um trecho de asfalto. Vibramos, já devíamos estar chegando. Mas ainda seguimos quarenta quilômetros antes de chegarmos a esperada Bariloche. Com receio de que surgisse neve novamente, embora os primeiros quilômetros de asfalto não dessem indícios de sua presença, não tiramos as correntes. Parece incrível, mas arrastamo-nos a quarenta quilômetros por hora até chegarmos àquela bonita cidade turística.
            Chegamos em San Carlos de Bariloche. A cidade dos esquiadores e amantes do inverno na América do Sul. Era meia noite quando atravessamos o centro da cidade.
            Como estávamos bem perto da fronteira decidimos completar o tanque e aproveitar o preço da gasolina. Desde que havíamos saído de Viedma, uns cinco dias antes, pagávamos apenas metade do preço pelo combustível. É que a lei argentina prevê custo reduzido para o sul do país, a fim de implementar o turismo e o desenvolvimento da região. Assim, abastecíamos apenas com a gasolina especial, de maior octanagem. Na hora de pagar em Bariloche levamos um susto: por ser uma cidade puramente turística e desenvolvida, aquela lei já não prevalece ali. Pagamos caro por um pequeno descuido.
            Deixamos a bela cidade, já dirigindo há três dias sem parar. Seus belos prédios em estilo europeu e suas ruas calçadas com paralelepípedos foram ficando para trás. Ainda havia muita gente na rua quando saímos dali à uma da madrugada. Seguimos, com correntes, embora as ruas de Bariloche não estivessem cobertas com neve.
            Naquele ponto  eu dirigia, e percebi que os dois rapazes dormiam. O cansaço era insuportável e conduzi por apenas uns trinta e cinco quilômetros. Parei do lado da estrada às duas da manhã e uni-me a eles num ronco gostoso. Às cinco e meia despertei e dirigimo-nos para a fronteira com o Chile. Tiramos as correntes e vimos o 12º dia da nossa viagem clarear, avançando novamente por estrada de terra.
            No posto argentino da fronteira tivemos a informação de que a estrada que cruza a cordilheira estava coberta de neve, mas que ocasionalmente tratores trabalhavam removendo-a. Ali a temperatura estava na casa dos quinze graus negativos e tivemos que trocar o primeiro pneu furado da viagem. Enquanto trocávamos o pneu, percebemos, o Binho e eu, que nossas calças estavam se desfazendo em alguns pontos. Depois de gastarmos algum tempo tentando relembrar o que poderia ter motivado aqueles furos, descobrimos a causa.
 - Foi quando estávamos em Rio Gallegos e pegamos aquela bateria emprestada! Disse o Binho.
 - Tem razão! Ainda bem que temos outras roupas por baixo! Completei! Dando risadas.
            Seguimos para a temida travessia às oito e meia da manhã. Apenas uns cinco quilômetros e já tivemos que colocar novamente as correntes. A neve caia como em filmes de natal e o Binho resolveu se divertir um pouco. Pegou o seu skate, que já estava sem as rodinhas e deslisava pelas encostas cobertas de neve em uma montanha próxima. E enquanto eu filmava, o Márcio resolveu deixar marcado na neve o nome da sua namorada.
            Tudo ali era lindo, mas ao mesmo tempo, desolado. A paisagem coberta de neve, tudo branco, fazia daquele lugar um sonho para cada um de nós. Entramos no carro e mais uns oito quilômetros, o sonho começou a virar pesadelo. A camada de neve era muito grossa, cerca de 30 a 40 centímetros; começamos a ter dificuldades para avançar. O gás do aquecedor acabou. O Márcio, que conduzia naquela hora, girava o volante de um lado a outro e acelerava e desacelerava a fim de facilitar o avanço do carro. Só que a neve ficava cada vez mais espessa e o desgaste da embreagem já se fazia notar pelo forte cheiro do disco esquentando. Até que houve um momento que não deu mais. O carro literalmente atolou na neve e ficou preso. Mesmo com as correntes nas rodas de tração, elas deslizavam, pois o fundo do carro já havia encostado na neve. Sem o aquecedor, a temperatura do interior do carro caia rapidamente e passamos minutos angustiosos. Desnecessário émencionar que as muitas histórias de pessoas que morreram em situações idênticas vieram à cabeça dos três no mesmo instante. Olhávamos uns para os outros, preocupados e calados. Imaginei que os dois estivessem me olhando e pensando: e agora homem? Como vamos sair desta?
            Sugeri que descêssemos do carro e empurrássemos. O Binho achou que não ia dar certo, pois o nosso carro era muito pesado e a neve escorregadia. Falei então de minhas experiências de empurrar carros atolados na lama.
 - Na roça dá certo! E a lama é escorregadia também! Falei.
O Binho aceitou a argumentação e descemos. Empurramos o carrão meio de lado para forçar as laterais dos pneus contra o cascalho. Pedimos a Deus que nos ajudasse.
            - Um, dois e ...já! O carro saiu sem maiores dificuldades. Entusiasmado, o Márcio avançou cerca de duzentos e cinqüenta metros e o Binho e eu saímos correndo atrás. Esquecemos de que estávamos na altitude e chegamos no carro com "meio metro" de língua prá fora. Entramos no carro e seguimos agradecidos a Deus pela ajuda num momento crucial.  Um pouco mais à frente encontramos com alguns carros e um ônibus que vinha em comboio. Aí comecei a entender a pergunta do policial argentino na fronteira: - Vocês vão sozinhos? Com receio de que algo de desagradável ocorra, eles atravessam aquele trecho em comboio para que possam se ajudar mutuamente. Mas a visão dos carros nos animou. Se eles chegaram  até aqui, é certo que poderemos chegar lá, pensamos. Mais um pouco à frente e vimos, sucessivamente três tratores limpando a estrada. Naquele trecho havia com certeza mais de meio metro de neve e o trabalho das máquinas era imprescindível. começamos a encontrar descidas e sabíamos que a nossa aventura no gelo e na neve estava prestes a pedir um descanso. Após quarenta quilômetros de travessia de fronteira, chegamos ao posto fronteiriço do Chile. Já sem neve e sem correntes.

Uma Viagem de Carro pelos Caminhos da América do Sul - Capítulo V


CAPÍTULO V

EXTREMO SUL


"As nossas atitudes marcam nossas vidas da mesma forma que nossas vidas marcam nossas atitudes" George Elyot

            Seguimos então para Punta Arenas, pois a informação que conseguimos em Rio Gallegos nos dizia que seria praticamente impossível avançar os 700 km que ainda nos separavam de Ushuaia, no extremo sul. Ao chegarmos na fronteira Argentina/Chile fomos informados de que só poderíamos seguir até Ushuaia se tivéssemos correntes e tração nas quatro rodas. A estrada estava congelada e não havia tratores retirando a neve. Entretanto, poderíamos seguir até Punta Arenas. Nosso carro só tinha tração traseira.
            Com correntes nas rodas traseiras avançamos naquela estrada de terra congelada. Ao chegarmos no Estreito de Magalhães, paramos para tirar fotos e filmar um pouco os limites da América do Sul Continental. Ali lembrei do aventureiro Fernão de Magalhães. Destemido, arrojado e impetuoso, ele partiu da Europa disposto a realizar a primeira circunavegação global. Isto em 1520. Com cinco navios e 277 homens ele saiu para realizar a maior façanha marítima até então. Se conseguisse, ele provaria o que a maioria dos estudiosos já sabia: que a terra era redonda e era possível contorná-la através da navegação. Aportou no sul da Argentina e passou no estreito que leva o seu nome. Dali avistou as grandes fogueiras que os índios faziam na ilha próxima para se aquecerem em meio ao frio intenso. Chamou-a de terra do fogo e o nome ficou. Infelizmente enfrentou diversos problemas em sua viagem, especialmente a partir do pacífico. Parte da tripulação se amotinou, vários morreram de escorbuto e alguns em ataques de índios (quando eles aportaram em alguma ilha). Em uma das ilhas da atual Polinésia Francesa, o próprio Fernão de Magalhães morreu, vítima de um conflito com os indígenas. Aproximadamente três anos depois do início da aventura, um navio completou a viagem chegando à Espanha com 18 homens. O que relataram dava para escrever muitos livros.

            E ali estávamos nós, avistando o estreito e a oito ou dez quilômetros, a ilha da Terra do Fogo.
            Saímos dali a cem por hora avançamos pela estrada de terra, preocupados com duas coisas: queríamos ir e voltar naquele mesmo dia a Punta Arenas, e nossa gasolina estava na reserva. Fomos informados de que talvez houvesse um posto de gasolina por aquelas paragens.
            Após avançarmos uns cem dos 240 quilometros até Punta Arenas, chegamos finalmente a um posto de gasolina. Na verdade eram apenas duas bombas e uma guarita. Elas só possuiam indicador de litros e estavam bem enferrujadas. Mas funcionavam.
            Ao aproximarmo-nos de Punta Arenas passamos a rodar em um trecho asfaltado. Mas uns poucos quilômetros adiante, mais gelo e neve na estrada. Colocando e tirando e colocando de novo as correntes, finalmente chegamos a Punta Arenas.
            O visual era, para nós, de uma cidade suíça. Coberta de gelo, aquela cidade lá no fim do continente tem também os seus encantos.
            Paramos o carro ali, na esquina da rua Mapuche com avenida Manuel Bulnes. A temperatura devia estar na casa dos dez negativos. Havia uma camada de neve de uns trinta centímetros pôr toda parte. O sol havia acabado de se por e os estudantes saíam de suas aulas.
            Ali nossa viagem tomaria rumo norte até o Mar do Caribe, cerca de doze mil quilômetros acima . Mas nada tirava o nosso ânimo. Apenas um pensamento passava em nossa mente: Conseguimos! Atingimos a cidade mais setentrional da parte continental da América.
            Depois de entrevistarmos algumas estudantes, que, a despeito da temperatura usavam saias curtas, partimos de novo. Agora somente rumo norte.
            O frio era muito intenso e começamos a sonhar com as terras tropicais que atingiríamos em cerca de duas ou três semanas. De acordo com os nossos cálculos só teríamos três horas para percorrermos uns cento e oitenta quilômetros, pois o posto fronteiriço fecharia às 22:30 hs. Teríamos pela frente pistas congeladas, asfaltos e terra antes da fronteira.
            Andando no limite, chegamos à fronteira, e deixamos em nossos passaportes quatro vistos em um só dia. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Primeira Escalada das Agulhas Negras


Foi minha primeira escalada no Parque Nacional de Itatiaia. Eu estava junto com dois amigos, o campeão brasileiro de mountain bike, Levi Nogueira, e o analista judiciário, Elias Rolemberg. Eu havia lido o livro do Sérgio Beck com orientações precisas de como chegar ao topo das Agulhas Negras e em janeiro de 1993 partimos para uma aventura estranha aos trilheiros: escalar um maciço rochoso. A época ideal de escaladas no PNI vai de abril a setembro. Nos outros meses é necessário se assegurar de antemão que vai ter tempo bom. 
Elias (de vermelho) e eu (de azul) no caminho de acesso ao PNI.

Ansiosos pela aventura, percebemos que o nosso plano estava fadado ao fracasso: o tempo fechou quando chegamos ao Abrigo Alsene, já no platô das Agulhas. Bem, para chegar ao Alsene, nós, marinheiros de primeira viagem, vivemos uma epopeia. No livro do Beck, ele apenas dizia que o Parque Nacional fica na cidade de Itatiaia. 

É verdade, mas isso quando se refere à parte baixa do PNI. Para chegar a parte alta, é necessário pegar a Rodovia Dutra até a cidade de Engenheiro Passos. Como não sabíamos, tivemos que pedalar os quinze quilômetros que separam as duas cidades (é, fomos de bike). Mas a dureza estava apenas no começo. 
O Elias segurou um exemplar do 'flamenguinho'.

De Engenheiro Passos até a entrada do Parque Nacional de Itatiaia na parte alta, são quase trinta quilômetros de estrada num aclive medonho. No caminho, já perto do parque nos deparamos com vários sapinhos (ou rãs), vermelhinhos, com listras negras no corpo. Hoje, o sapinho ‘flamenguinho’ é o símbolo do Parque. Depois de muitas horas de subida chegamos ao abrigo, ou seja, no acampamento base, no final do dia.


Bem, descansamos naquela noite e ao amanhecer, nos dirigimos ao Parque. Na portaria falamos de nossa intenção de escalar as Agulhas Negras. Fomos avisados dos perigos da escalada com o tempo instável. Seguimos. 

Levi Nogueira (à direita) e eu (à esquerda).

Vista das Agulhas desde a trilha: o tempo fechou.

Início da subida: pisando nas ranhuras para manter o equilíbrio.

Tive que me segurar com firmeza na subida, pois a rocha estava molhada.

O Elias se posiciona para subir com corda um dos acessos à fenda do estudante.

O Elias segura-se à corda e segue logo após a fenda do estudante.

Elias (agasalho escuro) e eu (agasalho azul e branco) no topo em meio a Neblina.

A placa indicando a conquista do Exército colocada na década de 1960.

O Levi Nogueira no topo, junto à cruz.

A subida foi lenta e difícil. A indicação do Beck não levava ao caminho mais fácil – na verdade, um dos caminhos mais difíceis – a fenda do estudante, que dá acesso a rochas que beiram precipícios, no caminho rumo ao topo. Mas nossa perseverança foi premiada: chegamos ao topo. Na época ainda havia uma placa do exército fixada numa rocha e uma cruz de ferro no topo, castigada por vários raios que a atingiram. Hoje, apenas o parafusos que fixavam a cruz se encontram no local.
Foi uma grande aventura que me motivou a várias outras. Acabei gostando muito do Parque e retornei ao Agulhas seis vezes. Amo esta montanha.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

QUESTIONANDO A EXISTÊNCIA DOS (JARDINS) ZOOLÓGICOS

QUESTIONANDO A EXISTÊNCIA DOS
(JARDINS) ZOOLÓGICOS

Dr. Frank Viana Carvalho

Resumo
Em todo o século XX, vários pesquisadores se posicionaram pelo fim dos jardins zoológicos, marcando posição a favor da criação e aumento das reservas e áreas de proteção (ambiental) da vida animal nos países originários dessas espécies. Nestes locais seriam mantidas as pesquisas sobre os animais, com aparatos, equipamentos e cuidados para que houvesse o mínimo possível de invasão dos espaços da vida animal. Faz sentido ainda existirem Zoológicos?

Abstract
Throughout the twentieth century, several researchers have positioned the end of zoos scoring position in favor of creating and increasing reserves and protected areas (environmental) of animal life in the originating countries of these species. These sites would be maintained research on animals, with apparatus, equipment and care so that there was the least possible invasion of areas of animal life. Zoos makes sense still exist?

Já há alguns anos venho questionando a existência dos Zoológicos, não como um ambientalista, mas como filósofo. Quanto mais estudo e leio sobre o assunto, tanto mais me convenço da sua inadequação, anacronismo e irracionalidade.

Ora, é necessário questionar não só o ‘para quê’, mas também o ‘porquê’ de, em nossas cidades, termos zoológicos. Chamados graciosamente de ‘jardins’ ou ‘parques’ zoológicos, estes locais são destinados ao aprisionamento de animais selvagens, a maioria desconhecidos do público, para exibição e entretenimento do homem mediante o pagamento de ingressos. Seria esta uma visão radical? Tudo bem, temos outras definições mais pedagógicas e suaves. Para os defensores, o zoológico é um local de preservação e reprodução desses animais. E para a lei, pelo Artigo 1° da Lei Federal 7173/83, é considerado jardim zoológico qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos, em cativeiro ou em semiliberdade expostos à visitação pública.

Contra e a Favor

Os defensores dizem que os Jardins Zoológicos têm como ponto forte a conservação de espécies. Em outras palavras, ele serve como local de preservação de espécies ameaçadas de extinção pela destruição de seu habitat natural. No avanço científico atual, os pesquisadores têm até mesmo conseguido levar essas espécies à reprodução em cativeiro.

Além disso, outras razões são apresentadas na manutenção do modelo, tais como a possibilidade do desenvolvimento e aperfeiçoamento profissional (dos zoólogos, biólogos e outros técnicos e estudiosos do comportamento animal), a pesquisa científica da vida animal e, finalmente, a conscientização através da exposição com a clara ideia de difundir o pensamento de preservação da natureza selvagem.

Já os contrários ao modelo, insistem no argumento de que o melhor para os animais é deixa-los nas montanhas, vales, matas, cavernas, florestas, rios e mares - em seu ambiente natural. Ou seja, é uma insensatez retirar os animais de seu habitat e trancafiá-los em jaulas e espaços reduzidos ou, na melhor das hipóteses, em cercados de tamanho diminuto quando comparados com o espaço disponível de seu ambiente de origem (natural). O que devemos, argumentam, é proteger o habitat das espécies para que elas vivam ali da forma mais harmoniosa possível.

Um pouco de história

Desde o Egito dos faraós, cujos servos e soldados capturavam em suas caçadas gatos selvagens, macacos, babuínos e leões, e os mantinham (em seus templos) como símbolo de força e poder, até o século XVII, os zoológicos eram propriedades particulares e o seu valor era medido pelo grau de exotismo e ferocidade dos animais expostos.

No século XVIII nascerá o primeiro zoológico público, fundado em Paris (França) para abrigar animais oriundos de apreensões em circos e eventos que utilizavam animais em shows. Em Londres (1826) surgirá o primeiro zoológico público com o claro objetivo de ser uma instituição científica para o estudo dos animais. Justamente neste, com a finalidade de serem obtidos recursos financeiros para a manutenção dos animais, o local será aberto à visitação pública e, imaginem só, começaram a fazer shows com os animais para atrair os visitantes. Como aumentaram os visitantes, julgaram ser necessária a aquisição de outros animais – que foram buscados diretamente da natureza e colocados em cativeiro.


Desde os primeiros jardins zoológicos até por volta de 1900, os espaços, ambientes e jaulas eram construídos para proporcionar aos visitantes o melhor ângulo de visão, e não para dar boas condições de vida aos animais.


Em 1900 foi fundado na Alemanha o “Stellingen Zôo”, baseado em um conceito radicalmente diferente: os animais teriam recintos mais amplos e apropriados – estes espaços buscavam imitar o habitat natural dos animais. Embora positivo, nele foi continuada a ideia de manter aberta a visitação e de cobrar por ela. Este zoo na Alemanha foi fundado pelo naturalista Carl Hagenbeck.

Por que sou contra

O conceito e ideia dos melhores jardins zoológicos é a de cuidar dos animais que estavam sofrendo maus tratos em circos ou em ‘coleções’ particulares, ou ainda aqueles que foram vítimas do tráfico de animais.

Idealmente, estes animais (retirados de circos e do tráfico) deveriam ser reintroduzidos em seu habitat. Contudo, após anos em cativeiro, é fato que eles seriam presas fáceis ou morreriam por não saber caçar e se defender de seus predadores.

Entretanto, o contato com os seres humanos tem se revelado como uma das principais fontes de stress e enfermidades para várias espécies animais.

Em todo o século XX, vários pesquisadores se posicionaram pelo fim dos jardins zoológicos, marcando posição a favor da criação e aumento das reservas e áreas de proteção (ambiental) da vida animal nos países originários dessas espécies. Nestes locais seriam mantidas as pesquisas sobre os animais, com aparatos, equipamentos e cuidados para que houvesse o mínimo possível de invasão dos espaços da vida animal.

No distante 1937, Julia Allen Field afirmou: “Não podemos ver a beleza essencial de um animal enjaulado, apenas a sombra de sua beleza perdida.”

No final do século XX conforme tudo indicava, os jardins zoológicos estavam com data de validade vencida.

Grande engano, quase vinte anos se passaram e tudo continua como sempre.

Alguns equívocos, erros, falhas e ideias equivocadas continuam:
a) Várias espécies que não correm risco de extinção são mantidas cativas em jardins zoológicos, apenas para entreter visitantes.
b) Com a finalidade de aumentar o acervo, novas espécies exóticas são trazidas, num tráfico ‘autorizado e legal’, mas tremendamente danoso e eticamente questionável.
c) A insistência na reprodução em cativeiro de espécies não ameaçadas. Os filhotes nascidos nestas condições são ‘condenados’ a sempre viver em cativeiro.
d) Vários animais em condições de serem reintroduzidos em seu habitat, são mantidos em cativeiro. Salvo raríssimas exceções, não há uma política e ação séria de preparo dos animais para a reintrodução na natureza.
e) Os animais são tratados como propriedade do ‘homem’, obviamente contra a vontade deles.
f) A insistência no argumento do zoológico como um bom local de estudo das espécies. Desconsideram que o animal em cativeiro tem seu comportamento e hábitos alterados.
g) Os animais são ‘forçados’ a conviver com o homem, seu ‘tutor’.
h) Os animais são expostos numa exibição não consentida, pois na natureza várias espécies evitam ‘aparecer’ e se escondem naturalmente. É certo que esta exposição acarreta stress e outras consequências danosas aos animais.
i) Mantem os animais em um clima, vegetação e alimentação distintas de seu habitat natural.
j) Utilizam animais selvagens para entretenimento e lazer dos seres humanos.

Obviamente crescemos cercados e envolvidos pelo paradigma de que os jardins zoológicos são uma coisa boa, adequada e correta para com os animais.

Por este paradigma, é como se tivéssemos o ‘direito’ de capturar, prender e apresentar em exposição os animais selvagens. Ainda sob este prisma temos um bom argumento – nós os mantemos presos para o próprio benefício deles. Mas isso é equivocado. Segundo o cubano naturalizado brasileiro Pedro Ynterian, 71, presidente internacional do "Great Ape Project", que luta pelo bem-estar dos grandes primatas, zoológicos causam estresse aos animais, que chegam a se mutilar, e não têm importância pedagógica. “Crianças podem ver o leão no zoológico, mas o comportamento do animal é falso. Acho mais válido assistir a um documentário.”

Finalizando

Não consigo ver lógica e racionalidade nos argumentos apresentados em defesa dos zoológicos. Eles deveriam ser um lugar de transição com data marcada para fechamento – para que nos movêssemos em ações que levassem a ampliação ou criação de reservas naturais. O paradigma de que os jardins zoológicos são bons é tão forte que ‘cega’ e ‘ensurdece’ algumas pessoas.

Mas lentamente o movimento contra os zoológicos ganha adeptos. Enquete feita pela Folha Online com 5723 pessoas revelou que 46% (2.630 pessoas) são favoráveis ao fechamento dos zoológicos. Os demais, 54% (3.093 pessoas) são favoráveis à sua manutenção. Enfim, pela força dos movimentos e pelas pesquisas, podemos afirmar sobre o tema e sobre o futuro dos animais: 'a sorte está lançada' (alea jacta est).

Fonte:
SANDERS, Aline Sanders, FEIJÓ, Anamaria Gonçalves dos Santos.
Uma reflexão sobre animais selvagens cativos em zoológicos na sociedade atual. Disponível em
ALMEIDA, Flavya Mendes de. Bioética Aplicada a animais de zoológicos.
Disponível em: Historia dos zoológicos na Europa. Disponível em: BOSTOCK, Stephen St. C. Zoos and zoological parks. In: Encyclopédia of
Applied Ethics. Vol. 4. London: Academic Press, 1998. 571-582.
Zoológicos: Objetivos e conceitos. Disponível em: Folha Online. http://polls.folha.com.br/poll/1029903/results
http://mylostworldjm.blogspot.com/2011/05/nao-podemos-ver-beleza-essencial-de-um.html

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RELAÇÕES INTERPESSOAIS NO MUNDO ESVAZIADO PELO INSTANTÂNEO E DESCARTÁVEL

RELAÇÕES INTERPESSOAIS NO MUNDO ESVAZIADO PELO INSTANTÂNEO E DESCARTÁVEL

 Dr. Frank Viana Carvalho

Resumo
Tornamo-nos a sociedade do instantâneo e do descartável. Vivemos na era dos bens descartáveis e dos serviços instantâneos. Quase tudo que nos chega às mãos é descartável e ao mesmo tempo queremos as coisas na velocidade do pensamento. E qual é o problema? A resposta é simples – nós transpomos nossas relações com as coisas para a nossa relação com as pessoas.

Abstract
We have become a society of instant and disposable. We live in an age of disposable goods and services snapshots. Almost everything we get in our hands we throw them at the same time we want things at the speed of thought. And what is the problem? The answer is simple - we transpose our relations with things for our relationship with people.


Viver continuamente num contexto de relações interpessoais parece ser uma condição básica da natureza humana. Seja na família, na comunidade do bairro, do trabalho, do clube, da igreja e sobretudo da escola, interagimos continuamente com o outro. No caso da escola, relações entre alunos são reproduções do cotidiano em um contexto particularizado – quase uma ilha. Quando os professores lançam o desafio de que os alunos trabalhem em grupos, este gesto pedagógico mostra-nos uma clara intenção de potencializar estas relações, seja por motivá-los a crescer no aprendizado do trabalho em equipe, seja na busca conjunta da realização de uma tarefa.

Entretanto, esta não é uma prática rotineira, especialmente por demandar do professor o preparo e o planejamento para que não ocorra o contrário do que se pretendia. Em outras palavras, pretende-se que na escola, o aluno desenvolva habilidades que o ajudarão nas relações interpessoais no mundo fora da escola. Desta forma, trabalhos em grupos que ocorrem de forma organizada e produtiva, onde cada um cumpre a sua parte não são tão constantes na vida escolar. São muitas as dificuldades neste processo e um número razoável de docentes mantém os alunos num ensino individualizado e com poucas interações entre si.

No cotidiano fora da escola, há uma tendência natural ao agrupamento e à busca de realizações conjuntas para uma grande variedade de tarefas. Fora da escola, como diz Piaget, “existe a vida, e na vida, existem os amigos e as relações sociais entre crianças.” Para ele é “nesta atmosfera de cooperação que se desenvolve a autonomia.” E logo em seguida o mesmo autor pergunta: “Por que a escola não tiraria então proveito destas possibilidades que revela o estudo psicológico do desenvolvimento moral e social das crianças. Aqui ainda, isto depende antes de tudo da atitude do professor.”(1)

Relações interpessoais são construções de identidades

O que ocorre, neste caso, e estamos falando de relações interpessoais, é a constante busca da escola para adequar-se aos mecanismos sociais da atualidade e porque não dizer, da modernidade. Mas esta busca esbarra numa profunda frustração para a escola ao não conseguir o sucesso almejado, ou consegui-lo apenas de forma parcial. Soma-se a isto o próprio ser humano em busca da sua identidade. Para onde vais? Essa era uma pergunta que denotava na antiga Roma um sentido de rumo para a vida, no sentido de construção desse rumo. É a construção de si próprio. Esse quo vadis mostra uma busca inconsciente que é uma constante na vida do adulto, mas será também nas crianças em idade escolar? Com certeza.

Não estaríamos tentando dar uma explicação psicológica a uma simples questão do cotidiano das instituições (neste caso, da escola)? Talvez. Aqui poderíamos afirmar como Fischmann e Wheelis (2) que, ao mesmo tempo em que há uma profunda insatisfação das pessoas na sua busca, há também um excesso de psicologização na tentativa de resolver e explicar os problemas.

Esse processo, no entanto, não é algo que ocorre de forma metódica, sistemática e, com isso diversas rupturas nessas tentativas de explicação da natureza humana e seu processo de construção. A sensação de descontinuidades leva a uma busca individual, com explicações para tudo – logo há também uma exacerbação da crença no próprio indivíduo. Neste contexto, onde muitas pessoas (quase todos) supõem saber analisar o comportamento, caminha-se para o processo narcísico, onde as pessoas se tornam referências para si mesmas e para os demais. Em todo este processo há uma busca de respostas imediatas na tentativa (de) que sejam definitivas, pois as pessoas têm dificuldade de compreender que a identidade é um processo em construção.

É essa busca de respostas instantâneas que, tão logo pareçam suprir as necessidades imediatas, são abandonadas, ou mesmo descartadas, se reproduz em muitas coisas do cotidiano. Tornamo-nos assim, uma sociedade do instantâneo e do descartável.

O Instantâneo e o Descartável

Isto se manifesta especialmente em nossas relações com as coisas. Vivemos na era dos bens descartáveis e dos serviços instantâneos. Lenços, guardanapos, copos e fraldas descartáveis, para não mencionar uma infinidade de coisas, substituíram lenços e guardanapos de pano, copos de vidro e fraldas (sim, isso mesmo) de tecido de algodão.

Ao mesmo tempo queremos as coisas na velocidade do pensamento: comida rápida (fast-food), dinheiro sacado instantaneamente (caixas 24 horas), transações comerciais feitas com um clique, celulares que nos permitem falar com quem quisermos a qualquer hora (é impossível não ser localizado) e milhares de outras coisas que tornaram nossa vida instantânea.

Mas o descartável e o instantâneo se misturaram e aí banalizamos tudo: comida servida em marmitex com talheres de plástico, sanduíches em embalagens de papel (o isopor é démodé) e porque não, mensagens de texto pelo celular, fotografias que nunca são reveladas (e diga-se de passagem, para quê?). Realmente, o instantâneo e o descartável dominaram a nossa vida, a nossa cultura e em muitos, até o pensamento e a personalidade.

E qual é o problema? Não é esse o caminho natural da evolução humana? A resposta é simples – nós transpomos nossas relações com as coisas para a nossa relação com as pessoas. Não é apenas uma tendência – é uma realidade. É algo muito e completamente humano. E no instantâneo e no descartável não há antes e nem há depois, pois o que importa é o momento presente.

Muitos exemplos poderiam ser dados, mas ficarei apenas em um. Todos conhecem a expressão ‘ficar’, que em nosso mundo (tão moderno) significa simplesmente ter alguém para o momento, sem nenhum (absolutamente nenhum) compromisso. Dirão alguns que isso ocorria no passado, mas esses se esquecem que as pessoas evitavam fazer isso às claras ou deixar evidente para os demais, especialmente para a pessoa envolvida. Hoje não, o ficar é uma troca consciente – ‘eu te uso e você me usa, mas não queremos nada um com o outro’. A transferência foi total – é a completa e absoluta banalização do instantâneo e descartável.

Poderíamos dizer que a facilidade e a rapidez dessas relações levam a um esvaziamento e a uma superficialidade que confunde as pessoas e faz com que elas percam o referencial da construção do eu? Seguramente, pois se por um lado, cada um é o “eu em construção” e, por outro lado, somos “descartáveis”, onde está a nossa importância? Esta perda de referenciais pode levar a uma anulação de si próprio. Não é de se admirar que vivemos na época em que a crise da auto-estima é a maior na história da humanidade. E ainda assim, muitos se colocam como a medida de todas as coisas.(3) Isso mostra a que ponto chegamos no esvaziamento das perspectivas para a construção do eu.

Como proporcionar ambientes saudáveis de relações interpessoais num mundo que perdeu os referenciais básicos na construção do eu? Como incentivar alunos a interagirem para melhorar suas habilidades de trabalho em equipe no mundo que transfere o instantâneo e descartável para os relacionamentos interpessoais?


A complexidade das relações entre as pessoas numa interação em grupos

O trabalho em grupo é bem exemplificado numa corrida de revezamento: é necessário planejamento, preparo, responsabilidades individuais e esforço de todos para a consecução das metas globais e individuais. Não se pode esquecer nunca que os grupos são formados por pessoas e que não são apenas grupos, são um conjunto de relações entre as pessoas.

Estranho é que a sociedade de uma forma geral e a mídia de forma particular não enfatizam a busca coletiva, mas sim a individual, com destaque para o estrelato (ou estrelismo). No grupo enquanto um mecanismo de cooperação e ganhos conjuntos não deve haver uma busca de estrelato ou preponderância, onde o próprio conceito de estrelato é equivocado (uma estrela não brilha sozinha no céu). Sempre há espaço para todos (muitas estrelas brilham juntas). Um claro exemplo disso ocorreu em maio de 1995 quando a mídia tentava destacar o feito de Waldemar Niclevicz ao atingir o cume do monte Everest, como o primeiro brasileiro a escalar a montanha mais alta da Terra. Na verdade, Waldemar Niclevicz estava acompanhado de outro brasileiro, Mozart Catão. Como se percebe, parecia aos olhos da imprensa e da TV que seria mais heroico e glorioso destacar o feito de um só (4). Logo, não é positivo o papel da mídia na construção das identidades e das relações entre as pessoas no grupo.

Numa sociedade que coloca o hedonismo como um valor aceitável (5) e desmerece os esforços de muitos para destacar a realização de uns poucos, a consequência natural é ver as pessoas fechando os olhos para quem está ao seu lado e deixando de perceber o sofrimento alheio. Construir relações é exatamente o contrário: é ver no outro de fato um semelhante. Tudo aquilo que pode ser positivo no trabalho em grupo, pode, e deve ser maximizado pelos que incentivam o trabalho em equipes e grupos. É necessário trabalhar as potencialidades de cada um. Dentro e além do aspecto cognitivo é necessário desenvolver as capacidades analíticas, argumentativas, reflexivas e críticas. Estas podem ser trabalhadas para que se desenvolva um exercício permanente da democracia, da cidadania e da ética.

Na construção das relações e na construção da identidade pessoal é necessário ver e ter consciência de que os esforços fazem sentido. Ver de que forma a vida e as relações fazem sentido. E este senso depende de valores estáveis: nossos referencias de vida, de história. O que nos leva a ter segurança no que é certo e errado e estar pronto a decidir.

Trabalhar em grupo é sobretudo construir relações com os demais e assim, estabelecer também valores seguros para a construção da própria personalidade. Não há dúvidas de que ocorre uma construção da própria identidade nas relações de grupo.

Ervin Goffman , que foca seus estudos nas relações entre as pessoas nos grupos sociais afirma que ‘atuamos’ como se fôssemos atores em um palco (6). E acabamos mais desenvolvendo efeitos dramáticos do que atitudes. Esta é uma abordagem interessante numa análise do trabalho em grupos em sala de aula. Até que ponto estaremos sendo autênticos em nossas relações interpessoais? E o que de fato vêm a ser autenticidade se todos somos assim? Mas a sua afirmação de que as pessoas agem para ser aceitas é uma constante nos grupos. Com isto mudam de postura e mesmo de atitudes. Algumas se apropriam do papel de outras e desta forma, o importante é manter a fachada.

O grande risco aqui é a não preocupação moral com os próprios padrões, e isto envolve o risco da aceitação formal e da vivência apenas dos padrões visíveis, externos e não de fato, pessoais. Desta forma, as pessoas ditam e vivem padrões e traços de identidade. (alguns destes, apenas suposições).

Nas relações entre componentes dos grupos há ainda a questão dos estigmas que carregamos e que influenciam diretamente a maneira como as pessoas nos vêem e nos tratam. Influenciam também a maneira como nós tratamos os demais. Muitas vezes o estigma é tão marcante, que as pessoas não olham para uma “outra pessoa”, mas para o estigma que ela carrega. Ora, quanto mais se tece na superfície aparente, mais frágeis os papéis que vivenciamos ficam por baixo. É como insistir em construir uma casa sobre alicerces frágeis. Quanto mais se insiste em avançar, maior é o risco de desmoronamento.

A solução está na figura do próprio docente (e dos líderes): ele deve assumir o seu papel e ser uma referência de valores para seus alunos. John Dewey dizia que “é pelo exemplo que aprende a humanidade, não aprenderão em outra escola”.

Segundo Green (7), “o ensino cooperativo é a solução para uma parte significativa dos problemas de ensino e aprendizagem” e “as técnicas do ensino cooperativo, quando bem aplicadas, podem resgatar alunos considerados sem chance e sociabilizar a turma” (8). Sua definição é de que o Ensino Cooperativo (ou aprendizagem cooperativa) é uma proposta metodológica de organização do trabalho da sala de aula com os alunos trabalhando em grupos de estudo. Estes grupos recebem instruções dos professores e se interagem positivamente para o progresso da aprendizagem e do relacionamento interpessoal.

O problema central neste caso é analisar os alunos em interação e as múltiplas interações dos alunos enquanto trabalham conjuntamente sob a orientação do professor. A prática docente busca modelos consensuais e a ênfase na cooperação é uma necessidade da educação conforme muitos autores, inclusive Piaget (9):

“Conforme a cooperação substitui a coação, a criança dissocia seu eu do pensamento de outro.” ... “Logo, cooperação é fator de personalidade, se entendermos por personalidade ... o eu que se situa e se submete, para se fazer respeitar, às normas da reciprocidade e da discussão objetiva.” ... “Sendo a cooperação, fonte de personalidade, na mesma ocasião, as regras deixam de ser exteriores.”

Diversas pesquisas confirmam os aspectos positivos e a necessidade de melhor analisarmos as inter-relações que ocorrem no funcionamento da aprendizagem a partir dos grupos dentro da sala de aula e em vários ambientes de convivência coletiva. Se nenhum trabalho for feito no sentido de melhorar as relações entre os estudantes e, consequentemente, entre as pessoas, a pergunta feita há quase dois milênios, não terá uma resposta positiva.

Fontes:
(1) PIAGET, A Educação da Liberdade: Conferencia apresentada no 28º Congresso Suíço dos Professores em 8 de julho de 1944 em Berna, Suíça.
(2) Do livro The quest for identity, de WHEELIS, Allen, citado por FISHMAN. Roseli. Professora da Faculdade de Educação da USP.
(3) Richard Sennet, O declínio do homem público: tiranias da intimidade.
(4) O próprio Waldemar, infelizmente, destaca em seu site este feito da mesma forma que a imprensa o fez. A menção a Catão é apenas periférica. (http://www.niclevicz.com.br/pag14.php)
(5) Konrad Lorenz em, A demolição do homem.
(6) Erving Goffman, A representação do eu na vida cotidiana; Estigma: notas sobre a manipulação da identidade; Manicômios, prisões e conventos.
(7) Andrews University, Michigan, USA.
(8) Green, William, Aulas do Mestrado em Educação, dez/jan 96/97, UNASP, Eng. Coelho - SP.


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