sábado, 14 de março de 2009

A crença na existência de Deus

A crença em Deus ou a crença na existência de Deus.

A partir de uma perspectiva moderna ou da perspectiva do ceticismo, o ‘acreditar em Deus’ pode ser visto como ‘uma construção humana’, ou ainda, como diriam outros, é ‘algo que nos foi imposto’ ou inculcado pela sociedade. Dessa forma, não tivemos ‘escolha’, mas fomos cercados pela idéia de sua existência e não chegamos a refletir sobre isso.

A idéia exposta no parágrafo anterior, longe de ser uma aberração, é uma conjectura filosófica razoável e parece atraente a muitas pessoas em nossa época.

Entretanto, antes de avançar nos comentários sobre o exposto acima, não se pode deixar de considerar que há evidências plausíveis de que a ideia de Deus também se mostra inerente à condição humana. Haja vista o fato de que diferentes agrupamentos humanos, isolados ou não, primitivos ou não, mostram em sua construção cultural (sofisticada ou simples) uma crença em um Ser superior. A Revista Superinteressante (set/2007; ago/2008 e outras edições) volta e meia, apresenta alguns articulistas com pesquisas que tentam justificar ‘cientificamente’ a crença em um Ser superior.

Voltando a primeira consideração (‘acreditar em Deus’ como ‘uma construção humana), devemos observar que essa linha de raciocínio não nega necessariamente a existência de Deus, apenas mostra que a maioria crê, não por escolha, mas por indução.

Notemos ainda que há aspectos no ‘acreditar na existência de Deus’ que merecem uma análise mais aprofundada. É certo que cada colocação que farei poderia render mais do que um ou dois parágrafos, mas não é essa a minha intenção neste texto.

Acreditar em Deus

É fato que a nossa razão trabalha com os instrumentos que dispõe para interpretar o mundo à nossa volta. O ‘inteligir’ de Agostinho, o ‘cogito’ de Descartes e o ‘arrazoar’ de Kant nos fazem entender o mundo e buscar padrões, coerências e, os que vão mais a fundo, à busca de um propósito ou do ‘porquê’ de todas as coisas.

Assim, vemos que o ‘acreditar em Deus’ está ligado ou envolve algumas coisas das quais uma pequena minoria se dá conta. Não porque a maioria não seja capaz de assim o analisar, mas simplesmente porque quando reflete sobre esse assunto, segue em outra direção.

Se o acreditar em Deus é inerente à condição humana, não existe ‘escolha’ e o esforço na direção contrária é inútil, pois mesmo insistindo na tese da não existência, persistiria no homem a noção da Sua presença no Universo.

Observem que não estou utilizando uma lista de argumentos ontológicos ou metafísicos para ‘provar’ a existência de Deus. Estes argumentos existem e são muito bons[1]. (Prometo um dia detalhá-los neste blog). Além disso, existem os argumentos do desígnio e projeto (design inteligente), que são de natureza científica. Mas não é nessa direção que estou avançando, e sim, na análise da própria ‘crença’ na existência de Deus.

Um segundo elemento nesta análise é a caracterização deste Ser que tudo controla, que tudo rege. Para alguns, Ele seria uma força, um poder, perceptível na natureza, mas difícil de conceituar, difícil de explicar. Nessa concepção temos a crença de Einstein e de Spinoza. Em outra direção, temos uma visão de um Deus pessoal (para os teólogos cristãos), um Ser onipresente, onisciente e onipotente.

O interessante aqui é que de fato a ‘forma’ e o ‘modus operandi’ de Deus são, nas religiões ou nas filosofias, ‘representações’ e ‘construções’ humanas.

Um terceiro elemento é a aceitação daquilo que se chama de soberania do ‘Ser que rege o Universo’. Como assim? A aceitação da soberania de Deus por parte dos que creem nEle permite a compreensão e aceitação da ação de Deus no mundo sem as limitações que a grande maioria impõe à sua própria crença. Ele faz o que deseja porque Ele sabe o que é melhor.

Pode parecer antagônico, mas os céticos rigorosos, aqueles que duvidam da existência de Deus, muitos ou quase todos, também estabelecem um ‘padrão’ ou ‘conceito’ de Deus, no qual Ele só pode só pode existir de agir de ‘tal e tal maneira, ou ser ‘deste e daquele jeito’. Como assim?

Para estes últimos, Deus só pode existir dentro de certas especificações. Também estabelecem 'jeitos', formas ou maneiras de Deus agir e conduzir o mundo. Se Deus permite guerras e sofrimentos, então (para eles), Deus não pode existir; se há injustiças, idem; se há evidências de evolução, idem, pois na mente deles, não é possível que Deus existisse e agisse por este caminho (criar o universo por caminhos evolucionistas), etc.

Percebam que estou querendo mostrar que os céticos (ainda que muitos procurem negá-lo) também estabeleceram um ‘padrão’ ou uma ideia de Deus em sua mente e, por isso, não conseguem aceitá-lo.

Boa parte destes procura apenas negar o conceito de Deus presente nas religiões. Talvez sejam elas que afastam muitos dos céticos da crença, justamente pela forma como O apresentam.
Seria o caso que o Deus dos ‘crentes’ seja o Deus imaginado na mente dos ateus e, por isso, Ele seja rejeitado? Pode ser...

Mas, dessa forma, eles jamais poderão refletir a existência de Deus numa direção transcendental, porque sua noção de Deus envolve um conceito limitado (seja por influência alheia ou por construção própria) de Sua existência e Sua soberania.

Sem dúvida, muitos (se não todos) dos que creem na existência de Deus também o limitam, pois estabelecem a priori as maneiras como creem que Deus pode ou deve fazer as coisas. Entre estes há muitos que não podem aceitar que Deus possa ter criado o mundo por caminhos, tempos ou maneiras diferentes das que acreditam; que Ele tenha escolhido a entropia como parte de um mundo ‘perfeito’; que a revelação que o homem tem de Deus é imperfeita...

Voltando

Voltemos à ideia inicial. Sendo a ‘crença em Deus’, algo que ‘foi imposto’ pela sociedade de geração em geração, o caminho oposto, pela lógica, também pode ser afirmado de igual forma.

O ‘não acreditar em Deus’ tem sido ‘imposto’ por uma sociedade cética e incrédula. Esta sociedade, à semelhança das anteriores, também pode ter suas ‘razões’ para assim o fazer.

Mas não podemos negar que, no benefício da dúvida, ou melhor, do pleno funcionamento da razão, é uma ideia que nos está sendo ‘imposta’ por cientistas e pensadores representantes do status quo atual.

O que nos resta então? Aceitar a pressão ideológica e cultural das sucessivas gerações dos que acreditaram... ou a nova pressão exercida pela geração dos que não acreditam?


Tábua de Salvação

Alguns entendidos afirmam que o design inteligente, justamente por seu caráter científico[2], está se transformando na tábua de salvação ‘racional’ dos que creem em um Deus que tudo criou.

Pode ser.

Mas, a bem da verdade, o evolucionismo, por seu caráter científico[3] já é a tábua de salvação ‘racional’ de alguns que não creem em um Deus que tudo criou.

Um fato, contudo, talvez esteja a favor dos que não creem, sejam céticos, agnósticos ou ateus.

Por terem experimentado a ‘descrença’, parece que eles estão mais aptos a fazer a ‘escolha’ do que aqueles que simplesmente tiveram este conceito ‘implantado’ e ‘inculcado’ desde o nascimento e durante toda a vida.

Ou seja, para quem ‘desconstruiu’ a ideia de Deus e, com o conhecimento que tinha à disposição, construiu de novo, a ‘crença’ na existência de Deus pode ser realmente chamada de ‘escolha’.

Os dois parágrafos anteriores não diminuem os crentes, apenas mostram que a quase maioria absoluta deles não passou por um caminho intelectual de negação e depois, de aceitação.

Alguns, é verdade, passaram por terríveis dúvidas e questionamentos e chegaram ao limite de suas forças, mas mantiveram a crença. Talvez estes últimos tenham experimentado (ainda que por poucos momentos) o ceticismo em um nível muito elevado e, por pouco, não abandonaram por completo a premissa da fé. Sim, é possível que estes também tenham feito a escolha racional da crença na existência de Deus.

Escolhas...

Sei do que falo, pois percorri muitos caminhos, conheci muitas filosofias, cometi erros e acertos,
enfrentei completa descrença, ceticismo em um nível quase absurdo...

Se é possível assim o afirmar, optei pela razão, pela ciência, pela epistemologia, pela axiologia, pela metafísica...

E nesse caminho encontrei novamente o Criador[4]. Eu acredito em Deus! Será que eu escolhi crer em Deus!?!? Se assim o foi, eu o fiz na plenitude de minha razão!

Não posso negar que minha razão influencia tudo em minha vida, inclusive meus sentimentos[5]. Claro, sou um ser humano!

Pode ser verdade que alguns creem por alienação ou convicção cega. Não me vejo como prepotente ou arrogante ao dizer que este não é meu caso.


Referências:
[1] Apresento aqui dois destes argumentos. Um primeiro é a crença na necessidade da existência de Deus para que o mundo faça sentido. Entraria aqui a famosa lei da causalidade. A partir dela, Deus seria o ‘moto’ propulsor da existência de tudo o mais. Esta ideia nos vem por Tomás de Aquino. Surgiram ao longo do debate filosófico argumentos favoráveis e contrários a essa premissa, mas ela nunca pôde ser descartada.
Outro argumento, epistemologicamente forte, é que somente um ser supranatural (ou suprafísico) poderia dar existência a seres com características supranaturais (consciência, abstração, intuição, entre outras). A matéria inanimada seria incapaz dessa proeza (o desafio probabilístico para essa empreitada demandaria simplesmente um esforço sísifo [até para os especialistas]).
[2] Alguns cientistas evolucionistas sem se aprofundar na análise do D.I, afirmam que ele é anti-científico.
[3] Também há cientistas que negam o caráter científico do evolucionismo, colocando-o como uma ideologia com defensores ‘apaixonados’. O cientista Willem J. Ouweneel (Pesquisador Associado em Genética Experimental em Utrecht, Holanda, Ph.D. em Matemática e Ciências Naturais), afirma que é cada vez “mais evidente que a evolução não é sequer uma boa teoria científica”. (Fonte: http://www.scb.org.br/ - artigo “O caráter científico da Doutrina da Evolução”).
[4] Eu já O havia encontrado trilhando o caminho da fé, da teologia, da experiência espiritual...
[5] Seria a fé racional?
Fonte da Imagem: http://apertef5.com.br/wp-content/uploads/2009/03/deus.jpg

3 comentários:

CONVICTOS OU ALIENADOS? disse...

Excelente!

Conhecemo-nos e bebemos da mesma fonte. Eu segui da teologia para o Direito e para um mestrado, não concluído, em filosofia.

Por tudo que passei e passo eu precisei reconstruir minhas convicções e no momento estou sob o manto do agnosticismo.

Não vou dizer que estou feliz, mas tenho experimentado um pouco de paz...

Abraços e parabéns pelo texto!

Cleiton Heredia disse...

A aceitação racional da existência de deus tal como a de Antony Flew que abandonou o ateísmo após uma re-análise de suas convicções, ou mesmo a sua que declara ter escolhido crer em deus na plenitude de sua razão, só me deixa ainda mais confuso em relação ao sentido prático desta crença.

Você perguntou:

"Seria o caso que o Deus dos ‘crentes’ seja o Deus imaginado na mente dos ateus e, por isso, Ele seja rejeitado?"

E na sequência argumentou:

"Mas, dessa forma, eles jamais poderão refletir a existência de Deus numa direção transcendental, porque sua noção de Deus envolve um conceito limitado (seja por influência alheia ou por construção própria) de sua existência e sua soberania."

Entendo com isto que está querendo nos dizer que o conceito de deus apresentado pelas religiões pode ser muito limitado e desvirtuado por construções humanas, e, portanto nos fala de um tipo de crença mais transcendental.

Trocando em miúdos, a razão pode até levar-nos a conjecturar a possibilidade de deus existir, porém nunca poderá ir muito além disto. Não poderei nunca afirmar se este deus é bom, santo, pessoal ou se está interessado em mim, com base na razão, ciência, epistemologia, axiologia ou metafísica.

Somente as religiões com base na revelação sobrenatural é quem podem ir além da mera aceitação da existência de deus, para a definição de como ou quem é este deus.

E no final de tudo, o que realmente importa em termos práticos, não é simplesmente eu estar convencido de que o universo e a vida só seriam possíveis ou viáveis se algum tipo de deus existisse, mas sim se este deus é um ser pessoal e está positivamente interessado em minha vida.

Caso contrário, ser convencido racionalmente de sua existência sem ter condições de ter a mesma certeza de quem este ser é e de quais são suas preocupações, só me leva a pensar que tal crença de nada me vale.

Agora, se você argumentar comigo que posso conhecer a este deus, que minha razão diz existir, somente pela fé na revelação sobrenatural de um determinado segmento religioso, então eu lhe pergunto:

Porque se preocupar em escolher crer nele através da razão se no final das contas, em termos práticos que realmente importam para a minha vida aqui neste planeta, eu terei que escolher um deus, entre os vários oferecidos pelas religiões, usando única e exclusivamente a fé?

MaX disse...

Você disse:
"Se o acreditar em Deus é inerente à condição humana, não existe ‘escolha’ e o esforço na direção contrária é inútil, pois mesmo insistindo na tese da não existência, persistiria no homem a noção da Sua presença no Universo."

Isso absolutamente não é verdade. Se pode ser demonstrado, como alguns supõem, que acreditar em Deus está pré-programado em nosso cérebro, isto apenas indica uma condição que pode ter sido útil em alguma parte do desenvolvimento da espécie. No entanto não significa uma barreira intransponível. Podemos sempre nos levantar contra isso facilmente. O cérebro é reprogramável e nossos genes não mandam completamente em nossas vidas.

Disse também:
"Além disso, existem os argumentos do desígnio e projeto (design inteligente), que são de natureza científica."
Interessante, mas o Design Inteligente não é reconhecido como ciência. Não possui as caracterísrticas para tal. Trata-se de uma crença disfarçada de ciência que você e outros tentam equiparar ao evolucionismo.

Mais uma citação sua:
"Pode parecer antagônico, mas os céticos, aqueles que duvidam da existência de Deus, muitos ou quase todos, também estabelecem um ‘padrão’ ou ‘conceito’ de Deus, no qual Ele só pode só pode existir de agir de ‘tal e tal maneira, ou ser ‘deste e daquele jeito’."

Você se engana novamente ou apenas generaliza. Quando eu faço isso e muitos outros (não posso falar por todos os céticos) apenas significa que estamos desconstruindo uma das imagens de Deus. E não falando que este é o argumento para a não crença em todos os tipos de Deus. Se você discute com um católico, primeiramente vai apontar as incoerências do Deus católico para posteriormente seguir na direção da incoerência de um Deus qualquer. Não significa que não acredito em Deus porque o Deus católico não existe. E por mais que você apresente que algumas pessoas não acreditam em Deus por motivos incoerentes, isso nada ajuda a dar coerência a hipótese de um criador. O ônus da prova continua sendo de quem propõe a existência de Deus. Ou que não seja prova, apenas o ônus de algum argumento plausível.

Você fala muito sobre negar a existência de Deus. Pois bem, isso é um dos tipos de ateísmo. Mas não o único. Mas o que você tem a dizer sobre:
Eu não acredito em Deus pois não vejo razões para isso. Para que eu acredite em alguma coisa preciso de evidências (pensamento cético). Se por enquanto as coisas podem ser explicadas sem a existência de um criador, por que primeiramente formular essa hipótese que não conta com nenhuma evidência? Eu não formulo a hipótese da existência de um criador assim como não formulo a hipótese de você ser um elefante, pois além de eu não ter evidência para nenhum, ambos se mostram improváveis.

"O ‘não acreditar em Deus’ tem sido ‘imposto’ por uma sociedade cética e incrédula."

O máximo que o pensamento cético pode lhe impor é a exigir evidências. O fato de as evidências existirem não é culpa do pensamento cético.

Parece-me que você voltou ao caminho da credulidade por não compreender bem os motivos da não credulidade. Uma pena.

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