quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nisia Floresta e a Primeira Escola para Meninas do Brasil


  Em seu livro Patronos e Acadêmicos - referente às personalidades da Academia Norte-Riograndense de Letras -, Veríssimo de Melo começa o capítulo sobre Nísia da seguinte maneira: “Nísia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra”.
     De fato, a história e a obra de Nísia são de uma importância rara. “Infelizmente, a falta de divulgação da obra de Nísia tem sido responsável pelo enorme desconhecimento de sua vida singular e de seus livros considerados de grande valor”, diz Veríssimo.
     A educadora, escritora e poetisa nascida em 12 de outubro de 1810, em Papari, Rio Grande do Norte, filha do português Dionísio Gonçalves Pinto com uma brasileira, Antônia Clara Freire, foi batizada como Dionísia Gonçalves Pinto, mas ficou conhecida pelo pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nísia é o final de seu nome de batismo. Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se casou em 1828, pai de sua filha Lívia Augusta.
     Neste mesmo ano, o pai de Nísia havia sido assassinado no Recife, para onde a família havia se mudado. Em 1831, ela dá seus primeiros passos nas letras, publicando em um jornal pernambucano uma série de artigos sobre a condição feminina. Do Recife, já viúva, com a pequena Lívia e sua mãe, Nísia vai para o Rio Grande do Sul onde se instala e dirige um colégio para meninas. A Guerra dos Farrapos interrompe seus planos e Nísia resolve fixar-se no Rio de Janeiro, onde funda e dirige os colégios Brasil e Augusto, notáveis pelo alto nível de ensino.
     Em 1849, por recomendação médica leva sua filha, gravemente acidentada, para a Europa. Foi em Paris que morou por mais tempo. Em 1853, publicou Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre emancipação feminina, que foi merecedor de uma apreciação favorável de Auguste Comte, pai do positivismo.
     Esteve no Brasil entre 1872 e 1875, em plena campanha abolicionista liderada por Joaquim Nabuco, mas quase nada se sabe sobre sua vida nesse período. Retorna para a Europa em 1875 e, três anos depois, publica seu último trabalho Fragments d’un ouvrage inédit: Notes biographiques.
     Nísia faleceu em Rouen, na França, aos 75 anos, a 24 de abril de 1885, de pneumonia. Foi enterrada no cemitério de Bonsecours. Em agosto de 1954, quase 70 anos depois, seus despojos foram transladados pra o Rio Grande do Norte e levados para sua cidade natal, Papari, que já se chamava Nísia Floresta. Primeiramente foram depositados na igreja matriz, depois foram levados para um túmulo no sítio Floresta, onde ela nasceu.
     Sua mais completa biografia - Nísia Floresta - Vida e Obra - foi escrita por Constância Lima Duarte, em 1995. Um livro de 365 páginas, editado pela Editora Universitária (da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) que, em 1991, havia sido apresentado como Tese de Doutoramento em Literatura Brasileira da autora, na USP/SP.

Fonte: http://www.memoriaviva.com.br/nisiafloresta/

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma Aventura de Carro pelos Caminhos da América do Sul - Capítulo VI


CAPÍTULO VI

ARGENTINA DE NOVO

"Se és capaz de arriscar numa única parada tudo quanto ganhaste em toda a tua vida...". Rudyard Kipling

            Novamente em Gallegos, passamos na casa da sra. Nikolaus, que nos deu um gostoso jantar às 23:00 hs. Conversamos um pouco e saímos dali às duas da manhã para avançarmos para Comodoro Rivadávia. De acordo com o nosso cronograma estávamos um dia atrasados e precisávamos recuperar seguindo direto.
            Para nossa alegria, muita da neve que encontramos  na ida para o Sul, agora havia descongelado e não necessitamos fazer muito uso das correntes. Neste trecho o Binho atropelou um coelhinho "atravessador" de estradas.
            Na nossa rápida passagem por Comodoro, compramos líquido anticongelante e seguimos rumo à Cordilheira dos Andes. Sabíamos que íamos encontrar muito frio.
Um trechinho rural de Bariloche, perto da Cordilheira.
            Uma inquietação reinava dentro de mim: e se o frio da Cordilheira dos Andes for mais intenso do que o que podemos suportar? De início, tudo bem, pois já estávamos enfrentando frio há uns dez dias. Mas eu sabia que o avanço no gelo e na neve seria lento e a nossa experiência nestas situações era apenas de iniciantes.
            Vamos lá, pensei comigo: para todo problema existe uma solução. Poucos quilômetros depois de de Comodoro já começamos a subir. Montanhas e mais montanhas numa sucessão interminável. Assentado no banco traseiro, eu podia contemplar à vontade aquela magnífica paisagem. Lá pelo final da tarde surgiu a pré-cordilheira: altas montanhas, algumas cobertas de neve, outras pelos pinheiros e vegetação de altitude. Começaram a aparecer a nossa frente e a nossa esquerda, pois já tomávamos rumo noroeste.
            A noite chegou e com ela a chuva. Tínhamos receio de que nevasse, embora soubéssemos que não teríamos escolha nos Andes. Evitávamos paradas longas, pois a  simples abertura  das portas esfriava o interior do veículo. A chuva parou, mas em breve retornou trazendo mais frio. Nosso pequeno aquecedor a gás já estava no seu segundo e último bujãozinho descartável. A previsão inicial, segundo o vendedor, é de que ele durasse umas dezoito horas. Mas o primeiro não durou nem seis e isto também nos preocupava. Chegamos em Esquel por volta das nove da noite e nos alegramos, pois dali até San Carlos de Bariloche são apenas uns duzentos quilômetros. Entretanto, a partir daquele ponto encontramos alguns trechos de estradas de terra que iam ficando cada vez mais frequentes e longos, até que esta era a nossa única opção até Bariloche. Inúmeras poças d'agua na esburacada estrada faziam-nos parecer que estávamos em um rali na selva.
  O cansaço já não era muito suportável e para quem estava dirigindo tornava-se cada vez mais importante que o companheiro do lado estivesse acordado. Chuva de novo, e o frio aumentava. De repente surge a temida neve, cobrindo toda a estrada. Neste primeiro trecho foi possível avançar sem correntes. O carro dançava na estrada congelada e a densa escuridão daquelas montanhas só era cortada pelas luzes do nosso farol. Poucas vezes cruzamos com outros carros naquela região. Embora parecesse que seguíamos rápido, a noite se mostrava longa e o nosso alvo mais distante. A neve aumentou e tivemos que parar e colocar as correntes. Nevava muito e o frio fora do carro era insuportável. Quem desceria para colocar as correntes? Antes que começássemos a analisar a situação, o Binho prontamente se dirigiu para fora do carro e foi pegar no porta-malas o instrumento indispensável para aquela situação.
            Mortos de sono, já quase não falávamos nada. Correntes no chão, o Binho manda manobrar o carro: - Um pouco mais pra frente!... Agora para trás!... Tá bom! de novo! Aiii! Um grito de dor. E quase teve a sua mão atropelada. Ficou muito bravo e não vale a pena relembrar os impropérios que o coitado disse com a mão dolorida. Finalmente as correntes ocuparam o devido lugar e saímos dali. O Binho voltou com as mãos quase congeladas. Dava dó. Pegou o aquecedor e aquecia alternadamente as mãos. Depois foi o Márcio, que também batia queixo naquela hora. Usávamos todas as blusas que tínhamos direito e os cobertores também.
            Aí surge um trecho de asfalto. Vibramos, já devíamos estar chegando. Mas ainda seguimos quarenta quilômetros antes de chegarmos a esperada Bariloche. Com receio de que surgisse neve novamente, embora os primeiros quilômetros de asfalto não dessem indícios de sua presença, não tiramos as correntes. Parece incrível, mas arrastamo-nos a quarenta quilômetros por hora até chegarmos àquela bonita cidade turística.
            Chegamos em San Carlos de Bariloche. A cidade dos esquiadores e amantes do inverno na América do Sul. Era meia noite quando atravessamos o centro da cidade.
            Como estávamos bem perto da fronteira decidimos completar o tanque e aproveitar o preço da gasolina. Desde que havíamos saído de Viedma, uns cinco dias antes, pagávamos apenas metade do preço pelo combustível. É que a lei argentina prevê custo reduzido para o sul do país, a fim de implementar o turismo e o desenvolvimento da região. Assim, abastecíamos apenas com a gasolina especial, de maior octanagem. Na hora de pagar em Bariloche levamos um susto: por ser uma cidade puramente turística e desenvolvida, aquela lei já não prevalece ali. Pagamos caro por um pequeno descuido.
            Deixamos a bela cidade, já dirigindo há três dias sem parar. Seus belos prédios em estilo europeu e suas ruas calçadas com paralelepípedos foram ficando para trás. Ainda havia muita gente na rua quando saímos dali à uma da madrugada. Seguimos, com correntes, embora as ruas de Bariloche não estivessem cobertas com neve.
            Naquele ponto  eu dirigia, e percebi que os dois rapazes dormiam. O cansaço era insuportável e conduzi por apenas uns trinta e cinco quilômetros. Parei do lado da estrada às duas da manhã e uni-me a eles num ronco gostoso. Às cinco e meia despertei e dirigimo-nos para a fronteira com o Chile. Tiramos as correntes e vimos o 12º dia da nossa viagem clarear, avançando novamente por estrada de terra.
            No posto argentino da fronteira tivemos a informação de que a estrada que cruza a cordilheira estava coberta de neve, mas que ocasionalmente tratores trabalhavam removendo-a. Ali a temperatura estava na casa dos quinze graus negativos e tivemos que trocar o primeiro pneu furado da viagem. Enquanto trocávamos o pneu, percebemos, o Binho e eu, que nossas calças estavam se desfazendo em alguns pontos. Depois de gastarmos algum tempo tentando relembrar o que poderia ter motivado aqueles furos, descobrimos a causa.
 - Foi quando estávamos em Rio Gallegos e pegamos aquela bateria emprestada! Disse o Binho.
 - Tem razão! Ainda bem que temos outras roupas por baixo! Completei! Dando risadas.
            Seguimos para a temida travessia às oito e meia da manhã. Apenas uns cinco quilômetros e já tivemos que colocar novamente as correntes. A neve caia como em filmes de natal e o Binho resolveu se divertir um pouco. Pegou o seu skate, que já estava sem as rodinhas e deslisava pelas encostas cobertas de neve em uma montanha próxima. E enquanto eu filmava, o Márcio resolveu deixar marcado na neve o nome da sua namorada.
            Tudo ali era lindo, mas ao mesmo tempo, desolado. A paisagem coberta de neve, tudo branco, fazia daquele lugar um sonho para cada um de nós. Entramos no carro e mais uns oito quilômetros, o sonho começou a virar pesadelo. A camada de neve era muito grossa, cerca de 30 a 40 centímetros; começamos a ter dificuldades para avançar. O gás do aquecedor acabou. O Márcio, que conduzia naquela hora, girava o volante de um lado a outro e acelerava e desacelerava a fim de facilitar o avanço do carro. Só que a neve ficava cada vez mais espessa e o desgaste da embreagem já se fazia notar pelo forte cheiro do disco esquentando. Até que houve um momento que não deu mais. O carro literalmente atolou na neve e ficou preso. Mesmo com as correntes nas rodas de tração, elas deslizavam, pois o fundo do carro já havia encostado na neve. Sem o aquecedor, a temperatura do interior do carro caia rapidamente e passamos minutos angustiosos. Desnecessário émencionar que as muitas histórias de pessoas que morreram em situações idênticas vieram à cabeça dos três no mesmo instante. Olhávamos uns para os outros, preocupados e calados. Imaginei que os dois estivessem me olhando e pensando: e agora homem? Como vamos sair desta?
            Sugeri que descêssemos do carro e empurrássemos. O Binho achou que não ia dar certo, pois o nosso carro era muito pesado e a neve escorregadia. Falei então de minhas experiências de empurrar carros atolados na lama.
 - Na roça dá certo! E a lama é escorregadia também! Falei.
O Binho aceitou a argumentação e descemos. Empurramos o carrão meio de lado para forçar as laterais dos pneus contra o cascalho. Pedimos a Deus que nos ajudasse.
            - Um, dois e ...já! O carro saiu sem maiores dificuldades. Entusiasmado, o Márcio avançou cerca de duzentos e cinqüenta metros e o Binho e eu saímos correndo atrás. Esquecemos de que estávamos na altitude e chegamos no carro com "meio metro" de língua prá fora. Entramos no carro e seguimos agradecidos a Deus pela ajuda num momento crucial.  Um pouco mais à frente encontramos com alguns carros e um ônibus que vinha em comboio. Aí comecei a entender a pergunta do policial argentino na fronteira: - Vocês vão sozinhos? Com receio de que algo de desagradável ocorra, eles atravessam aquele trecho em comboio para que possam se ajudar mutuamente. Mas a visão dos carros nos animou. Se eles chegaram  até aqui, é certo que poderemos chegar lá, pensamos. Mais um pouco à frente e vimos, sucessivamente três tratores limpando a estrada. Naquele trecho havia com certeza mais de meio metro de neve e o trabalho das máquinas era imprescindível. começamos a encontrar descidas e sabíamos que a nossa aventura no gelo e na neve estava prestes a pedir um descanso. Após quarenta quilômetros de travessia de fronteira, chegamos ao posto fronteiriço do Chile. Já sem neve e sem correntes.

Uma Viagem de Carro pelos Caminhos da América do Sul - Capítulo V


CAPÍTULO V

EXTREMO SUL


"As nossas atitudes marcam nossas vidas da mesma forma que nossas vidas marcam nossas atitudes" George Elyot

            Seguimos então para Punta Arenas, pois a informação que conseguimos em Rio Gallegos nos dizia que seria praticamente impossível avançar os 700 km que ainda nos separavam de Ushuaia, no extremo sul. Ao chegarmos na fronteira Argentina/Chile fomos informados de que só poderíamos seguir até Ushuaia se tivéssemos correntes e tração nas quatro rodas. A estrada estava congelada e não havia tratores retirando a neve. Entretanto, poderíamos seguir até Punta Arenas. Nosso carro só tinha tração traseira.
            Com correntes nas rodas traseiras avançamos naquela estrada de terra congelada. Ao chegarmos no Estreito de Magalhães, paramos para tirar fotos e filmar um pouco os limites da América do Sul Continental. Ali lembrei do aventureiro Fernão de Magalhães. Destemido, arrojado e impetuoso, ele partiu da Europa disposto a realizar a primeira circunavegação global. Isto em 1520. Com cinco navios e 277 homens ele saiu para realizar a maior façanha marítima até então. Se conseguisse, ele provaria o que a maioria dos estudiosos já sabia: que a terra era redonda e era possível contorná-la através da navegação. Aportou no sul da Argentina e passou no estreito que leva o seu nome. Dali avistou as grandes fogueiras que os índios faziam na ilha próxima para se aquecerem em meio ao frio intenso. Chamou-a de terra do fogo e o nome ficou. Infelizmente enfrentou diversos problemas em sua viagem, especialmente a partir do pacífico. Parte da tripulação se amotinou, vários morreram de escorbuto e alguns em ataques de índios (quando eles aportaram em alguma ilha). Em uma das ilhas da atual Polinésia Francesa, o próprio Fernão de Magalhães morreu, vítima de um conflito com os indígenas. Aproximadamente três anos depois do início da aventura, um navio completou a viagem chegando à Espanha com 18 homens. O que relataram dava para escrever muitos livros.

            E ali estávamos nós, avistando o estreito e a oito ou dez quilômetros, a ilha da Terra do Fogo.
            Saímos dali a cem por hora avançamos pela estrada de terra, preocupados com duas coisas: queríamos ir e voltar naquele mesmo dia a Punta Arenas, e nossa gasolina estava na reserva. Fomos informados de que talvez houvesse um posto de gasolina por aquelas paragens.
            Após avançarmos uns cem dos 240 quilometros até Punta Arenas, chegamos finalmente a um posto de gasolina. Na verdade eram apenas duas bombas e uma guarita. Elas só possuiam indicador de litros e estavam bem enferrujadas. Mas funcionavam.
            Ao aproximarmo-nos de Punta Arenas passamos a rodar em um trecho asfaltado. Mas uns poucos quilômetros adiante, mais gelo e neve na estrada. Colocando e tirando e colocando de novo as correntes, finalmente chegamos a Punta Arenas.
            O visual era, para nós, de uma cidade suíça. Coberta de gelo, aquela cidade lá no fim do continente tem também os seus encantos.
            Paramos o carro ali, na esquina da rua Mapuche com avenida Manuel Bulnes. A temperatura devia estar na casa dos dez negativos. Havia uma camada de neve de uns trinta centímetros pôr toda parte. O sol havia acabado de se por e os estudantes saíam de suas aulas.
            Ali nossa viagem tomaria rumo norte até o Mar do Caribe, cerca de doze mil quilômetros acima . Mas nada tirava o nosso ânimo. Apenas um pensamento passava em nossa mente: Conseguimos! Atingimos a cidade mais setentrional da parte continental da América.
            Depois de entrevistarmos algumas estudantes, que, a despeito da temperatura usavam saias curtas, partimos de novo. Agora somente rumo norte.
            O frio era muito intenso e começamos a sonhar com as terras tropicais que atingiríamos em cerca de duas ou três semanas. De acordo com os nossos cálculos só teríamos três horas para percorrermos uns cento e oitenta quilômetros, pois o posto fronteiriço fecharia às 22:30 hs. Teríamos pela frente pistas congeladas, asfaltos e terra antes da fronteira.
            Andando no limite, chegamos à fronteira, e deixamos em nossos passaportes quatro vistos em um só dia. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Primeira Escalada das Agulhas Negras


Foi minha primeira escalada no Parque Nacional de Itatiaia. Eu estava junto com dois amigos, o campeão brasileiro de mountain bike, Levi Nogueira, e o analista judiciário, Elias Rolemberg. Eu havia lido o livro do Sérgio Beck com orientações precisas de como chegar ao topo das Agulhas Negras e em janeiro de 1993 partimos para uma aventura estranha aos trilheiros: escalar um maciço rochoso. A época ideal de escaladas no PNI vai de abril a setembro. Nos outros meses é necessário se assegurar de antemão que vai ter tempo bom. 
Elias (de vermelho) e eu (de azul) no caminho de acesso ao PNI.

Ansiosos pela aventura, percebemos que o nosso plano estava fadado ao fracasso: o tempo fechou quando chegamos ao Abrigo Alsene, já no platô das Agulhas. Bem, para chegar ao Alsene, nós, marinheiros de primeira viagem, vivemos uma epopeia. No livro do Beck, ele apenas dizia que o Parque Nacional fica na cidade de Itatiaia. 

É verdade, mas isso quando se refere à parte baixa do PNI. Para chegar a parte alta, é necessário pegar a Rodovia Dutra até a cidade de Engenheiro Passos. Como não sabíamos, tivemos que pedalar os quinze quilômetros que separam as duas cidades (é, fomos de bike). Mas a dureza estava apenas no começo. 
O Elias segurou um exemplar do 'flamenguinho'.

De Engenheiro Passos até a entrada do Parque Nacional de Itatiaia na parte alta, são quase trinta quilômetros de estrada num aclive medonho. No caminho, já perto do parque nos deparamos com vários sapinhos (ou rãs), vermelhinhos, com listras negras no corpo. Hoje, o sapinho ‘flamenguinho’ é o símbolo do Parque. Depois de muitas horas de subida chegamos ao abrigo, ou seja, no acampamento base, no final do dia.


Bem, descansamos naquela noite e ao amanhecer, nos dirigimos ao Parque. Na portaria falamos de nossa intenção de escalar as Agulhas Negras. Fomos avisados dos perigos da escalada com o tempo instável. Seguimos. 

Levi Nogueira (à direita) e eu (à esquerda).

Vista das Agulhas desde a trilha: o tempo fechou.

Início da subida: pisando nas ranhuras para manter o equilíbrio.

Tive que me segurar com firmeza na subida, pois a rocha estava molhada.

O Elias se posiciona para subir com corda um dos acessos à fenda do estudante.

O Elias segura-se à corda e segue logo após a fenda do estudante.

Elias (agasalho escuro) e eu (agasalho azul e branco) no topo em meio a Neblina.

A placa indicando a conquista do Exército colocada na década de 1960.

O Levi Nogueira no topo, junto à cruz.

A subida foi lenta e difícil. A indicação do Beck não levava ao caminho mais fácil – na verdade, um dos caminhos mais difíceis – a fenda do estudante, que dá acesso a rochas que beiram precipícios, no caminho rumo ao topo. Mas nossa perseverança foi premiada: chegamos ao topo. Na época ainda havia uma placa do exército fixada numa rocha e uma cruz de ferro no topo, castigada por vários raios que a atingiram. Hoje, apenas o parafusos que fixavam a cruz se encontram no local.
Foi uma grande aventura que me motivou a várias outras. Acabei gostando muito do Parque e retornei ao Agulhas seis vezes. Amo esta montanha.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

QUESTIONANDO A EXISTÊNCIA DOS (JARDINS) ZOOLÓGICOS

QUESTIONANDO A EXISTÊNCIA DOS
(JARDINS) ZOOLÓGICOS

Dr. Frank Viana Carvalho

Resumo
Em todo o século XX, vários pesquisadores se posicionaram pelo fim dos jardins zoológicos, marcando posição a favor da criação e aumento das reservas e áreas de proteção (ambiental) da vida animal nos países originários dessas espécies. Nestes locais seriam mantidas as pesquisas sobre os animais, com aparatos, equipamentos e cuidados para que houvesse o mínimo possível de invasão dos espaços da vida animal. Faz sentido ainda existirem Zoológicos?

Abstract
Throughout the twentieth century, several researchers have positioned the end of zoos scoring position in favor of creating and increasing reserves and protected areas (environmental) of animal life in the originating countries of these species. These sites would be maintained research on animals, with apparatus, equipment and care so that there was the least possible invasion of areas of animal life. Zoos makes sense still exist?

Já há alguns anos venho questionando a existência dos Zoológicos, não como um ambientalista, mas como filósofo. Quanto mais estudo e leio sobre o assunto, tanto mais me convenço da sua inadequação, anacronismo e irracionalidade.

Ora, é necessário questionar não só o ‘para quê’, mas também o ‘porquê’ de, em nossas cidades, termos zoológicos. Chamados graciosamente de ‘jardins’ ou ‘parques’ zoológicos, estes locais são destinados ao aprisionamento de animais selvagens, a maioria desconhecidos do público, para exibição e entretenimento do homem mediante o pagamento de ingressos. Seria esta uma visão radical? Tudo bem, temos outras definições mais pedagógicas e suaves. Para os defensores, o zoológico é um local de preservação e reprodução desses animais. E para a lei, pelo Artigo 1° da Lei Federal 7173/83, é considerado jardim zoológico qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos, em cativeiro ou em semiliberdade expostos à visitação pública.

Contra e a Favor

Os defensores dizem que os Jardins Zoológicos têm como ponto forte a conservação de espécies. Em outras palavras, ele serve como local de preservação de espécies ameaçadas de extinção pela destruição de seu habitat natural. No avanço científico atual, os pesquisadores têm até mesmo conseguido levar essas espécies à reprodução em cativeiro.

Além disso, outras razões são apresentadas na manutenção do modelo, tais como a possibilidade do desenvolvimento e aperfeiçoamento profissional (dos zoólogos, biólogos e outros técnicos e estudiosos do comportamento animal), a pesquisa científica da vida animal e, finalmente, a conscientização através da exposição com a clara ideia de difundir o pensamento de preservação da natureza selvagem.

Já os contrários ao modelo, insistem no argumento de que o melhor para os animais é deixa-los nas montanhas, vales, matas, cavernas, florestas, rios e mares - em seu ambiente natural. Ou seja, é uma insensatez retirar os animais de seu habitat e trancafiá-los em jaulas e espaços reduzidos ou, na melhor das hipóteses, em cercados de tamanho diminuto quando comparados com o espaço disponível de seu ambiente de origem (natural). O que devemos, argumentam, é proteger o habitat das espécies para que elas vivam ali da forma mais harmoniosa possível.

Um pouco de história

Desde o Egito dos faraós, cujos servos e soldados capturavam em suas caçadas gatos selvagens, macacos, babuínos e leões, e os mantinham (em seus templos) como símbolo de força e poder, até o século XVII, os zoológicos eram propriedades particulares e o seu valor era medido pelo grau de exotismo e ferocidade dos animais expostos.

No século XVIII nascerá o primeiro zoológico público, fundado em Paris (França) para abrigar animais oriundos de apreensões em circos e eventos que utilizavam animais em shows. Em Londres (1826) surgirá o primeiro zoológico público com o claro objetivo de ser uma instituição científica para o estudo dos animais. Justamente neste, com a finalidade de serem obtidos recursos financeiros para a manutenção dos animais, o local será aberto à visitação pública e, imaginem só, começaram a fazer shows com os animais para atrair os visitantes. Como aumentaram os visitantes, julgaram ser necessária a aquisição de outros animais – que foram buscados diretamente da natureza e colocados em cativeiro.


Desde os primeiros jardins zoológicos até por volta de 1900, os espaços, ambientes e jaulas eram construídos para proporcionar aos visitantes o melhor ângulo de visão, e não para dar boas condições de vida aos animais.


Em 1900 foi fundado na Alemanha o “Stellingen Zôo”, baseado em um conceito radicalmente diferente: os animais teriam recintos mais amplos e apropriados – estes espaços buscavam imitar o habitat natural dos animais. Embora positivo, nele foi continuada a ideia de manter aberta a visitação e de cobrar por ela. Este zoo na Alemanha foi fundado pelo naturalista Carl Hagenbeck.

Por que sou contra

O conceito e ideia dos melhores jardins zoológicos é a de cuidar dos animais que estavam sofrendo maus tratos em circos ou em ‘coleções’ particulares, ou ainda aqueles que foram vítimas do tráfico de animais.

Idealmente, estes animais (retirados de circos e do tráfico) deveriam ser reintroduzidos em seu habitat. Contudo, após anos em cativeiro, é fato que eles seriam presas fáceis ou morreriam por não saber caçar e se defender de seus predadores.

Entretanto, o contato com os seres humanos tem se revelado como uma das principais fontes de stress e enfermidades para várias espécies animais.

Em todo o século XX, vários pesquisadores se posicionaram pelo fim dos jardins zoológicos, marcando posição a favor da criação e aumento das reservas e áreas de proteção (ambiental) da vida animal nos países originários dessas espécies. Nestes locais seriam mantidas as pesquisas sobre os animais, com aparatos, equipamentos e cuidados para que houvesse o mínimo possível de invasão dos espaços da vida animal.

No distante 1937, Julia Allen Field afirmou: “Não podemos ver a beleza essencial de um animal enjaulado, apenas a sombra de sua beleza perdida.”

No final do século XX conforme tudo indicava, os jardins zoológicos estavam com data de validade vencida.

Grande engano, quase vinte anos se passaram e tudo continua como sempre.

Alguns equívocos, erros, falhas e ideias equivocadas continuam:
a) Várias espécies que não correm risco de extinção são mantidas cativas em jardins zoológicos, apenas para entreter visitantes.
b) Com a finalidade de aumentar o acervo, novas espécies exóticas são trazidas, num tráfico ‘autorizado e legal’, mas tremendamente danoso e eticamente questionável.
c) A insistência na reprodução em cativeiro de espécies não ameaçadas. Os filhotes nascidos nestas condições são ‘condenados’ a sempre viver em cativeiro.
d) Vários animais em condições de serem reintroduzidos em seu habitat, são mantidos em cativeiro. Salvo raríssimas exceções, não há uma política e ação séria de preparo dos animais para a reintrodução na natureza.
e) Os animais são tratados como propriedade do ‘homem’, obviamente contra a vontade deles.
f) A insistência no argumento do zoológico como um bom local de estudo das espécies. Desconsideram que o animal em cativeiro tem seu comportamento e hábitos alterados.
g) Os animais são ‘forçados’ a conviver com o homem, seu ‘tutor’.
h) Os animais são expostos numa exibição não consentida, pois na natureza várias espécies evitam ‘aparecer’ e se escondem naturalmente. É certo que esta exposição acarreta stress e outras consequências danosas aos animais.
i) Mantem os animais em um clima, vegetação e alimentação distintas de seu habitat natural.
j) Utilizam animais selvagens para entretenimento e lazer dos seres humanos.

Obviamente crescemos cercados e envolvidos pelo paradigma de que os jardins zoológicos são uma coisa boa, adequada e correta para com os animais.

Por este paradigma, é como se tivéssemos o ‘direito’ de capturar, prender e apresentar em exposição os animais selvagens. Ainda sob este prisma temos um bom argumento – nós os mantemos presos para o próprio benefício deles. Mas isso é equivocado. Segundo o cubano naturalizado brasileiro Pedro Ynterian, 71, presidente internacional do "Great Ape Project", que luta pelo bem-estar dos grandes primatas, zoológicos causam estresse aos animais, que chegam a se mutilar, e não têm importância pedagógica. “Crianças podem ver o leão no zoológico, mas o comportamento do animal é falso. Acho mais válido assistir a um documentário.”

Finalizando

Não consigo ver lógica e racionalidade nos argumentos apresentados em defesa dos zoológicos. Eles deveriam ser um lugar de transição com data marcada para fechamento – para que nos movêssemos em ações que levassem a ampliação ou criação de reservas naturais. O paradigma de que os jardins zoológicos são bons é tão forte que ‘cega’ e ‘ensurdece’ algumas pessoas.

Mas lentamente o movimento contra os zoológicos ganha adeptos. Enquete feita pela Folha Online com 5723 pessoas revelou que 46% (2.630 pessoas) são favoráveis ao fechamento dos zoológicos. Os demais, 54% (3.093 pessoas) são favoráveis à sua manutenção. Enfim, pela força dos movimentos e pelas pesquisas, podemos afirmar sobre o tema e sobre o futuro dos animais: 'a sorte está lançada' (alea jacta est).

Fonte:
SANDERS, Aline Sanders, FEIJÓ, Anamaria Gonçalves dos Santos.
Uma reflexão sobre animais selvagens cativos em zoológicos na sociedade atual. Disponível em
ALMEIDA, Flavya Mendes de. Bioética Aplicada a animais de zoológicos.
Disponível em: Historia dos zoológicos na Europa. Disponível em: BOSTOCK, Stephen St. C. Zoos and zoological parks. In: Encyclopédia of
Applied Ethics. Vol. 4. London: Academic Press, 1998. 571-582.
Zoológicos: Objetivos e conceitos. Disponível em: Folha Online. http://polls.folha.com.br/poll/1029903/results
http://mylostworldjm.blogspot.com/2011/05/nao-podemos-ver-beleza-essencial-de-um.html

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