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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Paulo Freire - Um legado incrível de um grande educador


Paulo Freire
 Frank Viana Carvalho
Mesmo sendo uma referência mundial na educação, Paulo Freire é incompreendido em seu país natal. Se Paulo Freire fosse de fato estudado, compreendido e utilizado, a educação brasileira estaria décadas à frente do que está hoje. Seu conceito de que a educação é um caminho para a emancipação, transformação, progresso individual e social está na própria base da educação, ideias preconizadas no iluminismo pelo grande pensador Jean Jacques Rousseau na obra O Emílio, e na virada do século XIX para o XX pelo respeitadíssimo educador e filósofo John Dewey. Já escrevi neste blog muito sobre Paulo Freire, mas retorno a ele neste momento em que sua obra é equivocadamente colocada em cheque.

Paulo Freire desenvolveu uma pedagogia crítica centrada no estudante, que vai muito além das metodologias, com princípios fundados no diálogo entre docentes e discentes e no valor da educação como ferramenta para a emancipação. 
O sucesso de Paulo Freire é completamente merecido. Ele é uma referência na educação mundial. Que tal aprender um pouco mais sobre ele?
No início da década de 1960, num Brasil com uma taxa de 40% de analfabetismo, uma das grandes realizações de Freire foi o projeto que coordenou na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, na alfabetização de adultos (hoje chamada de EJA). Utilizando seu método inovador - um método sintético unido a uma proposta de reflexão dialógica -, ele conseguiu a proeza de alfabetizar 300 adultos em três meses (a maioria em 45 dias).
Faço aqui um pequeno paralelo antes de continuar falando deste grande educador. Em fins da década de 1990 e início dos anos 2000 participei do Programa Alfabetização Solidária como formador de alfabetizadores numa parceria entre municípios da Paraíba e a faculdade onde eu trabalhava como coordenador de cursos superiores. Aproveitando a experiência e meus conhecimentos pedagógicos, eu mesmo atuei como alfabetizador de adultos (EJA) em São Paulo. Assim, como educador e alfabetizador, utilizei muito da proposta freiriana, unida aos avanços da metodologia da aprendizagem cooperativa (meu campo de pesquisa e publicações). O sucesso dos alfabetizandos era notável e isso ocorria em pouco tempo. Posso afirmar sem sombra de dúvida que, com a metodologia adequada e empenho dos estudantes, é possível alfabetizar em poucos meses na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Voltando a Paulo Freire e ao seu método, fica bem claro que ele buscava não só a base da alfabetização que era a formação de palavras e expressões e a leitura e compreensão, mas visava ao mesmo tempo à interligação do processo ao seu cenário, à sua conjuntura e à sua situação estrutural. O educando percebia que as palavras tinham conexão com o contexto social e cultural. Logo, sua educação visava à reflexão e conscientização que possibilitavam caminhos para a emancipação individual. E ao incentivar ações de parceria e cooperação, ele estava indicando caminhos de crescimento coletivo e comunitário.
Ele via a educação numa perspectiva filosófica: o educando assimilaria os conteúdos e conceitos estudados fazendo uso desta prática dialética com a realidade. E isso ocorreria em contraposição a outro tipo de educação, que ele via como dominadora, alienante e mantenedora do status quo: uma educação sem diálogo, onde os estudantes apenas recebiam passivamente os conteúdos dos professores - como uma conta que recebe depósitos -, daí denominada por ele de educação bancária; uma educação só voltada à técnica e à repetição vazia; uma educação sem reflexão e por isso alienante; uma educação mantenedora do status quo - manteria o educando com poucas perspectivas de progresso individual e social -, sobretudo nas classes mais desfavorecidas; uma educação que não permitia ao aluno estabelecer seu próprio caminho; uma educação que tinha interesse no silêncio e na passividade. Enfim, Freire propunha outro caminho e logo o país estava diante de duas propostas completamente distintas. 
Freire entre os grandes na Suécia

O caminho de suas ideias parecia destinado ao sucesso, no entanto, com as mudanças trazidas pela Ditadura Militar, incompreendido, Paulo Freire sofreu perseguição política. Documentos da Secretaria de Segurança Pública mostram que os militares consideravam Freire um “homem notoriamente ligado à política esquerdista”, que “vinha comunizando o Nordeste através do seu método de alfabetização de estilo revolucionário”.
Mas o que parecia a mais dura prova para o educador, se transformou em sua maior realização, pois suas ideias ganhariam o mundo. Após mais de setenta dias de prisão em 1964, teve que deixar o país e seguiu para a Bolívia, depois para Chile, Estados Unidos e Suíça. Escreveu, deu aulas, palestrou, ganhou o mundo.
Finalizando este post, enfatizo que os países mais avançados do mundo a partir do momento em que o conheceram, jamais negaram a importância, a inovação e o avanço que representam as ideias de Paulo Freire e continuam estudando e se aprofundando em seus conceitos. É sábio e é vanguardista adotarmos essa posição e seguirmos este mesmo caminho.

Não existe tal coisa como um processo de educação neutra. Educação ou funciona como um instrumento que é usado para facilitar a integração das gerações na lógica do atual sistema e trazer conformidade com ele, ou ela se torna a ‘prática da liberdade’, o meio pelo qual homens e mulheres lidam de forma crítica com a realidade e descobrem como participar na transformação do seu mundo”. (FREIRE, 2002, p. 15)
“ [É preciso] criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita, no fundo, da mesma forma reacionários, que se julgam proprietários, os primeiros, do saber revolucionário, os segundos, do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar também. [...] para mim, o caminho da superação daquelas práticas está na superação da ideologia autoritariamente elitista; esta no exercício difícil da virtude da humildade, da coerência, da tolerância, por parte do ou da intelectual progressista. Da coerência que vá diminuindo a distancia entre o que dizemos e o que fazemos”. (FREIRE, 1993, p. 80).

Aqui apenas um pouco do muito que Paulo Freire representa. Preferi apresentar em números e fatos:
- Suas ideias e propostas estão no currículo da formação de professores das mais prestigiadas Universidades de todo o mundo, de Harvard a Cambridge, de Oxford a Sorbonne, de Tóquio à Melbourne.
- Recebeu o prêmio da UNESCO de Educação para a Paz em 1986.
- O terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo inteiro.
- Autor do único livro (de um autor brasileiro) mencionado entre as cem obras mais citadas no mundo: Pedagogia do Oprimido.
Mural na Universidade do Chile homenageando Paulo Freire

- Único autor brasileiro entre os cem mais citados no Google Scholar 2016.
- O brasileiro mais homenageado da história recebendo o título de Doutor honoris causa em 35 Universidades do Brasil e do mundo.
- Cidadão honorário de diversas cidades brasileiras.
- Condecorado 24 vezes com medalhas, comendas e prêmios em vários países.
- Convidado oficial de 54 países dos cinco continentes.
- Homenageado com estátua em Estocolmo, capital da Suécia.
- Em 13 de abril de 2012 foi sancionada a Lei nº 12.612, que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira.
- Segundo uma pesquisa envolvendo três estados brasileiros, Paulo Freire é o nome de escola mais comum.
- Uma escola pública independente de Holyoke, Massachusetts, Estados Unidos, nomeou-se "Paulo Freire Social Justice Charter School", e isso foi aprovado pelo Estado em 28 de fevereiro de 2012.

Referências
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 22ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança; 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1993.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nisia Floresta e a Primeira Escola para Meninas do Brasil


  Em seu livro Patronos e Acadêmicos - referente às personalidades da Academia Norte-Riograndense de Letras -, Veríssimo de Melo começa o capítulo sobre Nísia da seguinte maneira: “Nísia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra”.
     De fato, a história e a obra de Nísia são de uma importância rara. “Infelizmente, a falta de divulgação da obra de Nísia tem sido responsável pelo enorme desconhecimento de sua vida singular e de seus livros considerados de grande valor”, diz Veríssimo.
     A educadora, escritora e poetisa nascida em 12 de outubro de 1810, em Papari, Rio Grande do Norte, filha do português Dionísio Gonçalves Pinto com uma brasileira, Antônia Clara Freire, foi batizada como Dionísia Gonçalves Pinto, mas ficou conhecida pelo pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nísia é o final de seu nome de batismo. Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se casou em 1828, pai de sua filha Lívia Augusta.
     Neste mesmo ano, o pai de Nísia havia sido assassinado no Recife, para onde a família havia se mudado. Em 1831, ela dá seus primeiros passos nas letras, publicando em um jornal pernambucano uma série de artigos sobre a condição feminina. Do Recife, já viúva, com a pequena Lívia e sua mãe, Nísia vai para o Rio Grande do Sul onde se instala e dirige um colégio para meninas. A Guerra dos Farrapos interrompe seus planos e Nísia resolve fixar-se no Rio de Janeiro, onde funda e dirige os colégios Brasil e Augusto, notáveis pelo alto nível de ensino.
     Em 1849, por recomendação médica leva sua filha, gravemente acidentada, para a Europa. Foi em Paris que morou por mais tempo. Em 1853, publicou Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre emancipação feminina, que foi merecedor de uma apreciação favorável de Auguste Comte, pai do positivismo.
     Esteve no Brasil entre 1872 e 1875, em plena campanha abolicionista liderada por Joaquim Nabuco, mas quase nada se sabe sobre sua vida nesse período. Retorna para a Europa em 1875 e, três anos depois, publica seu último trabalho Fragments d’un ouvrage inédit: Notes biographiques.
     Nísia faleceu em Rouen, na França, aos 75 anos, a 24 de abril de 1885, de pneumonia. Foi enterrada no cemitério de Bonsecours. Em agosto de 1954, quase 70 anos depois, seus despojos foram transladados pra o Rio Grande do Norte e levados para sua cidade natal, Papari, que já se chamava Nísia Floresta. Primeiramente foram depositados na igreja matriz, depois foram levados para um túmulo no sítio Floresta, onde ela nasceu.
     Sua mais completa biografia - Nísia Floresta - Vida e Obra - foi escrita por Constância Lima Duarte, em 1995. Um livro de 365 páginas, editado pela Editora Universitária (da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) que, em 1991, havia sido apresentado como Tese de Doutoramento em Literatura Brasileira da autora, na USP/SP.

Fonte: http://www.memoriaviva.com.br/nisiafloresta/

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Educação no Brasil no período Imperial

Período Imperial

1822 - 1888

Em 1820 o povo português mostra-se descontente com a demora do retorno da Família Real e inicia a Revolução Constitucionalista, na cidade do Porto. Isto apressa a volta de D. João VI a Portugal em 1821. Em sete de setembro de 1822, seu filho D. Pedro I declara a Independência do Brasil e, inspirada na Constituição francesa, de cunho liberal, em 1824 é outorgada a primeira Constituição brasileira. O Art. 179 desta Carta Magna afirmava e garantia a ‘instrução primária e gratuita para todos os cidadãos’.

Em 1823, na tentativa de se suprir a falta de professores institui-se o Método Lancaster, ou método do ensino mútuo, onde um aluno treinado (decurião) ensina um grupo de dez alunos (decúria) sob a rígida vigilância de um inspetor.

Em 1826 um Decreto institui quatro graus de instrução: Pedagogias (escolas primárias), Ginásios (ensino fundamental), Liceus (ensino médio), e Academias (ensino superior). E, em 1827 um projeto de lei propõe a criação de Pedagogias em todas as cidades e vilas, além de prever o exame na seleção de professores, para nomeação. Propunha ainda a abertura de escolas para meninas.

Em 1834 o Ato Adicional à Constituição dispõe que as províncias passariam a ser responsáveis pela administração do ensino primário e secundário. Graças a isso, em 1835, surge a primeira escola Normal do país em Niterói.

Mas o país era muito grande para decisões tão acanhadas, e os resultados gerais são desanimadores. Em 1880, em seu relatório à Câmara, o Ministro Paulino de Souza lamenta o abandono da educação no Brasil. Em 1882 Ruy Barbosa sugere a liberdade do ensino, o ensino laico e a obrigatoriedade de instrução.

Em 1837, onde funcionava o Seminário de São Joaquim, na cidade do Rio de Janeiro, é criado o Colégio Pedro II, com o objetivo de se tornar um modelo pedagógico para o curso secundário. Efetivamente o Colégio Pedro II não conseguiu se organizar até o fim do Império para atingir tal objetivo.

Até a Proclamação da República, em 1889 praticamente nada se fez de concreto pela educação brasileira. O Imperador D. Pedro II quando perguntado que profissão escolheria não fosse Imperador, respondeu que gostaria de ser ‘mestre-escola’. Apesar de sua afeição pessoal pela tarefa educativa, pouco foi feito, em sua gestão, para que se criasse, no Brasil, um sistema educacional.

Ano a ano

1822 - O Decreto de 1o de março criava no Rio de Janeiro uma escola baseada no método lancasteriano ou de ensino mútuo. Ou seja, somente um professor para cada escola.

1824 - A Constituição, outorgada pela Assembléia Constituinte, dizia, no seu artigo 179, que a instrução primária era gratuita a todos os cidadãos.

1825 - É criado o Ateneu do Rio Grande do Norte. É criado um curso jurídico provisório na Corte.

1827 - São criados os cursos de Direito de São Paulo e Olinda. É criado o Observatório Astronômico. Uma Lei Geral, de 15 de outubro, dispõe sobre as escolas de primeiras letras, fixando-lhes o currículo e institui o ensino primário para o sexo feminino.

1832 - Convertem·se em Faculdades de Medicina, as Academias Médico-Cirúrgicas do Rio de Janeiro e da Bahia.

1834 - O Ato Adicional da reforma constitucional dizia que a educação primária e secundária ficaria a cargo das províncias, restando a administração nacional o ensino superior.

1835 - É criada uma escola normal em Niterói. A primeira do Brasil.

1836 - É criada uma escola normal na Bahia. São criados os Liceus da Bahia e da Paraíba.

1838 - O Colégio Pedro II é fundado no Rio de Janeiro.

1839 - É criada uma escola normal no Pará.

1845 - É criada uma escola normal no Ceará.

1846 - É criada uma escola normal em São Paulo. Uma segunda será ali criada em 1848.

1849 - Gonçalves Dias, encarregado de estudar as condições do ensino nas Províncias do Norte dizia que ‘os nossos liceus são escolas preparatórias da academia e escolas más’.

1852 - Gonçalves Dias, em seu relatório de inspeção, dizia: ‘Quero crer perigoso dar·se·lhes (aos aldeados) instrução’.

1854 - O Decreto 1331A, de 17 de fevereiro, reforma os ensinos primário e secundário, exigindo professores credenciados e a volta da fiscalização oficial; cria a Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária. É criada uma escola normal na Paraíba.

1857 - No Rio Grande do Sul, no Colégio de Artes Mecânicas, a lei mandava recusar matrículas às crianças de cor negra e aos escravos e negros adultos, ‘ainda que libertos e livres’.

1870 - A Reforma Paulino de Souza pretendia imprimir, aos estudos realizados no Colégio Pedro II, um caráter formativo, habilitando os alunos não só para os estudos superiores, mas para a vida, além da instituição ser capaz de competir com os estabelecimentos particulares no aliciamento de candidatos às Academias. É criada a Escola Americana, o Colégio Piracicabano, escola primária de cunho protestante. · É criada uma escola normal no Rio Grande do Sul.

1872 - O Brasil contava com uma população de 10 milhões de habitantes e apenas 150.000 alunos matriculados em escolas primárias. O índice de analfabetismo era de 66,4%.

1873 - Com o objetivo de estimular o desenvolvimento dos estudos secundários nas províncias e de facilitar aos candidatos das províncias o acesso aos cursos superiores, o Ministro João Alfredo Correia de Oliveira instalou nas capitais das províncias do Império bancas de exames gerais preparatórios.

1874 - É criada a Escola Politécnica no Rio de Janeiro.

1878 - O Conselheiro Leôncio de Carvalho realiza uma reforma do ensino que permitia ‘a cada um expor livremente suas idéias e ensinar as doutrinas que acredite verdadeiras, pelos métodos que julgue melhores’. Além disso, manteve as matrículas avulsas e introduziu a freqüência livre e os exames vagos no Externato do Colégio Pedro II.

1879 - O Senador Oliveira Junqueira dizia: ‘certas matérias, talvez, não sejam convenientes para o pobre; o menino pobre deve ter noções muito simples’.

1880 - Surge a primeira escola normal da Capital do Império, mantida e administrada pelos Poderes Públicos.

1882 - Rodolfo Dantas cria um projeto propondo maior intervenção do Governo na instrução popular das províncias. Este projeto não chegou a ser discutido no Parlamento.

1884 - É criada a Escola Neutralidade, escola primária de cunho positivista.

1888 - É criado o Instituto Pasteur, no Rio de Janeiro.

1889 - Ferreira Viana, Ministro do Império dizia ser fundamental formar ‘professores com a necessária instrução científica e profissional’. Em sua última fala do trono Sua Majestade pedia empenho para a criação de um ministério destinado aos negócios da Instrução Pública. Com a Proclamação da República, no Governo Provisório do Marechal Deodoro da Fonseca, torna-se Ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Os alunos matriculados nas escolas correspondem a 12% da população em idade escolar.

Referência: LIMA, Lauro de Oliveira, Estórias da Educação no Brasil: de Pombal a Passarinho. 3ª ed., Rio de Janeiro: Brasília, 1977. (pedagogia em foco).
Fonte da Imagem: Museu Nacional (site oficial)

O período Joanino (1808 - 1820)

Com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, pela primeira vez na história um rei europeu transferia a capital de seu governo para uma colônia no continente americano. Escoltados pelos ingleses, cerca de 10 mil portugueses fizeram a travessia do oceano Atlântico. Uma forte tempestade que separou as várias embarcações, formando dois comboios. Parte dos viajantes aportou primeiramente na Bahia e o restante no Rio de Janeiro.

Os ingleses esperavam vantagens econômicas em troca do apoio oferecido (foram os responsáveis por escoltar a Família Real e defender as terras portuguesas da invasão napoleônica). Na Bahia, D. João VI instituiu na Carta Régia de 1808 a abertura dos portos a ‘todas as nações amigas’ (leia-se Inglaterra). Essa medida encerrou a dinâmica econômica que conduzia o país até aquele momento.

Quase que imediatamente, os produtos ingleses tomaram conta do país, impedindo o desenvolvimento de manufaturas ou fábricas no Brasil. Porém, através do comércio, as cidades portuárias tiveram notório desenvolvimento. Dois anos mais tarde, o decreto de 1808 transformou-se em um tratado permanente. Além de liberar o comércio, essas medidas trouxeram outras importantes conseqüências de ordem econômica: o contrabando diminuiu consideravelmente e os recursos arrecadados pela corte aumentaram. Um pouco mais tarde, em 1810, os Tratados de Aliança e Amizade e de Comércio e Navegação, fixaram os interesses britânicos no mercado brasileiro. Foram estabelecidas taxas alfandegárias preferenciais aos produtos ingleses: eles pagavam taxas de 15%, ao passo que os próprios ‘donos’ da colônia, os portugueses, pagavam taxas de 16%. As demais nações estrangeiras pagariam uma alíquota de 24%. Além desses valores, o tratado firmava um compromisso em que o tráfico de escravos seria extinguido em pouco tempo.

No campo educacional e cultural, algumas mudanças foram de grande importância, ainda que quantitativamente, não tenham sido suficientes. Missões estrangeiras vieram ao país avaliar as riquezas da região, a Biblioteca Real foi construída, o primeiro jornal do país foi criado. Além disso, novos prédios públicos foram estabelecidos. A Casa da Moeda, Banco do Brasil, a Academia Real Militar e o Jardim Botânico foram algumas das obras públicas do período joanino.

Em 1808 mesmo, foi fundada uma escola de educação, onde se ensinavam as línguas portuguesa e francesa, Retórica, Aritmética, Desenho e Pintura. Também foi criada a Academia de Marinha, no Rio de Janeiro. Além disso, foram criados cursos de medicina (cirurgia) no Rio de Janeiro e na Bahia. Foi ainda criada uma cadeira de Ciência Econômica na Bahia, da qual seria regente José da Silva Lisboa, o futuro Visconde de Cairu. Desfazendo-se de seus próprios livros (60.000 volumes) trazidos de Portugal, em 1810 D. João conseguiu fundar a nossa primeira biblioteca, que em 1814 foi aberta ao público. Em 1812 foi criado o curso de Agricultura na Bahia. Em Minas Gerais foi criada a Escola de serralheiros, oficiais de lima e espingardeiros e o Laboratório de Química no Rio de Janeiro. Em 1816 foi criada a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios e em 1817 um curso de Química na Bahia. Com o objetivo de beneficiar muitos ramos da indústria, em 1818 surgiu um curso de Desenho. Nesse mesmo ano foi criado o Museu Nacional na cidade do Rio de Janeiro.

Porém, a educação básica não recebeu uma atenção especial. As poucas escolas existentes cumpriam uma função social mínima, pois atendiam a uma parcela diminuta da população. Segundo dados históricos, na população com mais de dez anos de idade (sem contar os escravos) o analfabetismo rondava a casa dos 70%.

A administração joanina elevou o Brasil à condição de Reino Unido em 1815. Essa nova nomeação extinguiu politicamente a condição colonial do país. Inconformados, os lusitanos que permaneceram em Portugal se mostravam insatisfeitos com o fato do Brasil tornar-se a sede administrativa do governo português. Em 1820, um movimento revolucionário lutou pelo fim da condição política secundária de Portugal (Revolução do Porto). Esse movimento criou um governo provisório e exigiu o retorno de Dom João VI a Portugal.

Temendo a perda do seu poder, Dom João VI foi pra Portugal e Dom Pedro I, seu filho, como príncipe regente do Brasil. Os revolucionários lusitanos, mesmo inspirados por princípios liberais, exigiram a volta do pacto colonial (era mais vantajoso para Portugal). No Brasil, as repercussões desses acontecimentos impulsionaram a formação de um movimento que possibilitou a independência do Brasil.

Fonte da Imagem: Museu Nacional (site oficial)

O Marquês de Pombal e sua influência sobre a Educação Brasileira no final do século XVIII

O Período Pombalino
Frank V. Carvalho

A mesma lei que expulsou os jesuítas estabelecia novos rumos para a educação, tanto em Portugal, quanto no Brasil. Pombal estabeleceu o ‘novo modelo’ no qual se criava as aulas régias de Latim, Grego e Retórica. Ele criou também a Diretoria de Estudos que só passou a funcionar após o seu afastamento. As aulas régias eram autônomas e isoladas, com um único professor e não havia articulação entre elas.

Os colonizadores perceberam que era preciso modificar a situação da educação brasileira e criaram uma lei do “subsídio literário” para a manutenção dos ensinos primário e médio. Era um imposto criado em 1772 que incidia sobre a carne, o vinho, o vinagre e a cachaça. Além de pouco, nunca foi cobrado com regularidade e os professores ficavam longos períodos sem receber vencimentos a espera de uma solução vinda de Portugal.

Geralmente mal preparados para a função, além de improvisados e mal pagos, os professores eram nomeados por indicação ou sob concordância de bispos e se tornavam ‘proprietários’ vitalícios de suas aulas régias.

Mas a situação só piorava e pouca coisa pode se contar como positiva desse período. Dentre essas, podemos citar a criação no Rio de Janeiro, de um curso de estudos literários e teológicos em 1776, e do Seminário de Olinda, em 1798, por Dom Azeredo Coutinho, governador interino e bispo de Pernambuco. O Seminário de Olinda “tinha uma estrutura escolar propriamente dita, em que as matérias apresentavam uma sequência lógica, os cursos tinham uma duração determinada e os estudantes eram reunidos em classe e trabalhavam de acordo com um plano de ensino previamente estabelecido.” (Piletti, 1996: 37).

Em síntese, o período pombalino foi um caos para a educação brasileira: o sistema jesuítico foi desmantelado e nada que pudesse chegar próximo deles foi organizado para dar continuidade a um trabalho de educação. Com relação à metodologia empregada pelos professores, permanecia a influência dos modelo jesuítico, de muito rigor e unidade de ação por parte dos professores.

Fonte da Imagem: atelier.hannover2000.mct.pt

Os jesuítas e a Educação no Brasil Colônia

Os jesuítas no Brasil Colônia
Frank V. Carvalho

Os jesuítas são uma ordem fundada por Inácio de Loyola, em Paris (1534), com objetivos de levar o catolicismo a novos povos e de fazer frente à expansão da reforma protestante. Os primeiros jesuítas chegaram ao território brasileiro em 1549 juntamente com o primeiro governador geral, Tomé de Souza. À frente estava o famoso padre Manoel de Nóbrega. Contudo, o primeiro ‘professor’, no sentido da palavra, foi Vicente Rodrigues, que na época tinha apenas 21 anos. Durante os próximos 50 anos dedicou-se ao ensino e a propagação da fé católica. Mas o mais conhecido e (talvez) atuante foi o padre José de Anchieta.

Anchieta tornou-se mestre no Colégio de Piratininga. Além disso foi missionário em São Vicente (SP), onde escreveu na areia De beata virgine Dei matre Maria, missionário em Piratininga, Rio de Janeiro e Espírito Santo; provincial da Companhia de Jesus de 1579 a 1586 e reitor do Colégio do Espírito Santo. As rivalidades dos jesuítas com os protestantes também se apresentam em sua experiência - infelizmente participa da condenação em 1559 de um refugiado huguenote, o alfaiate Jacques Le Balleur. Mas os aspectos positivos se sobressaem e é dele o primeiro livro didático (e pedagógico) utilizado no Brasil: A Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil, impressa em Coimbra em 1595 por Antonio de Mariz. É a primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi.

Os jesuítas se dedicaram a propagação da fé católica e ao trabalho educativo. Dispuseram-se a ensinar aos índios a ler e escrever. De Salvador a obra jesuítica estendeu-se para o sul e em 1570, vinte e um anos após a chegada, já era composta por cinco escolas de instrução elementar (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga) e três colégios (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia).

Nas escolas jesuítas funcionavam alguns princípios que se mantiveram por mais de duzentos anos: unificação do método de ensino por todos os professores, ênfase na concentração e na atenção silenciosa dos alunos e um processo de ensino ligado à repetição e memorização dos conteúdos apresentados. Todos estes princípios se sobressaem na Ratio Studiorum (Ordem dos Estudos), síntese da experiência pedagógica dos jesuítas, composta de normas e estratégias, que visavam à formação integral do homem, de acordo com a fé e a cultura católica daquele tempo.

Os jesuítas não se limitaram à alfabetização; além do curso básico, eles ofereciam os cursos de Letras e Filosofia, considerados secundários, e o curso de Teologia e Ciências Sagradas, de nível superior, para formação de sacerdotes.

No curso de Letras estudava-se Gramática Latina, Humanidades e Retórica; e no curso de Filosofia estudava-se Lógica, Metafísica, Moral, Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Quem pretendia avançar (e possuía influência ou recursos), ia estudar na Europa, na Universidade de Coimbra, em Portugal, a mais famosa no campo das ciências jurídicas e teológicas, ou na Universidade de Montpellier, na França, na época, a mais procurada na área da medicina.

Para afastar os índios dos interesses dos colonizadores, os jesuítas criaram as missões, estas, mais afastadas, no interior do país. Nessas missões, os índios, além de passarem pelo processo de catequização, também foram orientados no trabalho agrícola, que garantia a todos (índios e jesuítas) uma fonte de renda. Essa ‘boa idéia’ acabou se transformando em uma armadilha: as missões transformaram os índios nômades em agricultores de endereço fixo, o que contribuiu para facilitar a captura deles pelos colonos, que conseguiram, muitas vezes capturar tribos inteiras nas missões.

Duzentos e dez anos de educação e influência dos jesuítas chegaram ao fim em 1759 (1760). Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal (primeiro-ministro de Portugal de 1750 a 1777), acusou-os de conspirarem contra o reino e os expulsou de todas as terras sob a influência de Portugal. No momento da expulsão os jesuítas mantinham 36 missões e 17 colégios e seminários. Isso, além dos seminários menores e escolas de primeiras letras instaladas em todas as cidades onde havia casas da Companhia de Jesus. Com a saída dos jesuítas, a educação brasileira vivenciou uma grande ruptura histórica em seu processo educacional – afinal de contas, o modelo jesuítico era um processo implantado e consolidado como modelo educacional em nosso país.

Fonte da Imagem: www.histedbr.fae.unicamp.br

História da Educação no Brasil (1)

Frank V. Carvalho

A educação brasileira tem uma história com fases bem fáceis de se identificar. É quase que um processo linear, marcado por fatos históricos bastante conhecidos.

Os portugueses trouxeram o pensamento e as práticas da educação que se praticava na Europa renascentista. Como colonizadores, eles não consideraram a contribuição que poderiam receber da população local (os índios).

Em 1549 chegaram em terras brasileiras os padres jesuítas e com eles o primeiro modelo de escola e de educação. Seus métodos pedagógicos eram rígidos e centralizadores, mas essa também era uma marca da forma de se educar na Europa quinhentista e seicentista. Quando eles chegaram aqui, não trouxeram somente a moral, os costumes e a religiosidade européia, trouxeram também seus métodos pedagógicos. Esse período irá até 1759/1760, quando eles serão expulsos do país pelo Marquês de Pombal. A herança que eles deixaram permanecerá, embora seja claro pela história que o sistema educacional sofreu uma inflexão após esse primeiro período.

Quando a família real, fugindo de Napoleão na Europa, resolveu transferir o Reino para o Novo Mundo, eles não tentaram implantar um sistema educacional por aqui. Mas é claro que algumas coisas foram feitas: D. João VI abriu Academias Militares, Escolas de Direito e Medicina, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico e, sua iniciativa mais marcante em termos de mudança, a Imprensa Régia. A educação, porém, permanecia sem receber a devida importância.

Com a Proclamação da República esperava-se uma mudança, mas nada ocorreu que pudesse merecer esse conceito – nada que fosse marcante ou significativo.

O século XX chegou e com ele, a modernidade, mas as mudanças foram lentas, como poderemos observar no estudo dessa disciplina. Embora os fatos da história foram claros em delimitar os períodos, as mudanças na educação não foram significativas.

Fonte da Imagem: pt.wikibooks.org

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