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terça-feira, 9 de junho de 2020

Três meses de Pandemia - Caminhos e Soluções na Educação

Três meses de Pandemia - Caminhos e Soluções na Educação

Frank Viana Carvalho

O mundo inteiro está apresentando respostas educacionais para que o processo educacional continue em meio à crise do novo coronavírus. Em minha perspectiva de pedagogo, gastei um tempo considerável pesquisando sobre o que está acontecendo em outros países, pois é uma pandemia, uma excepcionalidade. Além disso, há vários exemplos em nosso próprio país. 
  
Diferentes caminhos para o ensinar e o aprender
A Associação Internacional Global Partnership que promove ajuda e recursos para dezenas de países, numa parceria mundial pela educação afirmou sobre os meios de educação nesta pandemia:

“Não existe uma escolha “certa” para educação a distância no momento. Cada país deve escolher os melhores meios ou uma mistura de meios de acordo com acesso, infraestrutura técnica, conteúdo, capacidade de adaptar esse conteúdo aos meios apropriados à sua disposição e sua capacidade de fornecer aos alunos acesso a essas oportunidades de aprendizado o mais rápido possível.”

A UNESCO, braço da ONU para a educação, além da Internet, sugere vários caminhos para a educação a distância, que envolvem a todos, com inclusão real:

O mesmo incentivo para diferentes caminhos é feito pelo World Bank em suas políticas de educação para o mundo:


Ao pesquisar sobre o que diferentes atores estão fazendo nesta questão, vê-se que eles buscam respostas sem fechar ‘portas’ ou ‘possibilidades’, sem restringir o caminho da aprendizagem às TICs.

1. Na Colômbia (IDH 761, 79º), entre outras possibilidades, estão usando o Rádio, uma tecnologia centenária para o ensino na pandemia:

2. Na Argentina (IDH 830, 48º), além da internet, o uso da TV para educar na época do Coronavírus é oficial, são 14 horas de transmissão diária:

3. Na rica Áustria (IDH 914, 20º), no coração do continente europeu, além da internet, é também oficial o uso da TV para educar nessa pandemia com uma programação 24 horas: https://tv.orf.at/

4. Na Costa Rica (IDH 794, 63º), que possui um IDH dos mais altos entre os países da América Central, além da Internet e da TV, para as famílias que não têm internet, são enviados pelo Correio ou sistemas de entrega, todo o material de estudo impresso e apostilado a partir de um Programa do Ministério da Educação.


5. De volta ao Brasil (IDH 791, 69º).

a) Na UNICAMP, o Reitor Marcelo Knobel afirmou:
“A palavra chave neste momento é flexibilidade. É preciso dar flexibilidade para o estudante nesse momento tão complexo (...) Nós não tínhamos muito preparo [para o ensino remoto emergencial], mas ponderamos diversas questões, como nossa obrigação como instituição pública, de manter o funcionamento de algumas atividades (como nossos hospitais) e acreditamos que o ensino também é parte das coisas fundamentais de serem mantidas”.

A Universidade de Campinas deu liberdade aos Departamentos e docentes para a retomada de aulas e atividades não presenciais:

b) Na USP, mais de 90% das aulas teóricas dos cursos de graduação e mais de 900 disciplinas de pós-graduação estão sendo ministradas on-line. A instituição distribuiu 2.250 kits de internet aos estudantes em situação de vulnerabilidade acompanharem as aulas.

c) No IFRR, além de definirem como Plataforma AVA o Moodle, fizeram um leque amplo de possibilidades, materiais e recursos, e considerando que nem todos têm acesso à internet, estão fazendo chegar aos estudantes livros didáticos e materiais educativos impressos:

d) No IFES, além da internet, estão imprimindo instruções de atividades e apostilas, fazendo com que elas cheguem às casas dos estudantes: https://ifes.edu.br/noticias/19194-coronavirus

e) A Rede Estadual de São Paulo está utilizando a TV Escola e enviando às casas material impresso e kits de estudo:

f) O Instituto Unibanco lançou uma série de podcasts educacionais (seria como ouvir aulas no rádio) para os tempos da COVID-19:

g) A Prefeitura de São Paulo, além da internet, também está enviando material de aprendizagem impresso:
 

7. Na populosa Índia (IDH 647, 129º), 32 canais de TV Direct To Home (DTH) são dedicados à transmissão de programas educacionais, ampliando sua programação na pandemia para as 24 horas por dia e acessíveis em todo o país. 


8. No Peru (IDH 759, 82º), o governo está lançando mão de todos os caminhos para a aprendizagem dos estudantes: internet, rádio e TV. Além disso, o Ministério da Educação comprou mais de 840 mil tablets para os estudantes e professores.

9. Em outros países das Américas como Chile (IDH 845, 43º), Equador (IDH 758, 85º), Cuba (IDH 778, 72º) e Haiti (IDH 503, 169º), além das mídias digitais baseadas na internet, há muita utilização do Rádio e da TV para educar nos tempos da pandemia.

9. E os Estados Unidos (IDH 920, 15º)? Em Chicago, parte da programação televisiva foi adaptada para a educação dos estudantes. No Mississipi, a Rádio WTVA adaptou sua programação para fornecer programas de ensino à distância para estudantes em comunidades de pouco acesso à internet. Em Cleveland, uma emissora de TV faz transmissões de aulas em função da pandemia. Mesmo no país mais rico do mundo, Estados Unidos, há disparidades no acesso à internet e soluções inovadoras que não se restringem às TICs têm sido utilizadas. A frase da educadora americana Vickki Katz da Universidade de New Jersey (campus Rutgers, em New Brunswick) resume tudo:

"A noção de que devemos interromper o aprendizado digital para todos porque não temos como alcançar igualmente a todos é a preocupação certa, mas é a solução errada."



O retorno presencial e a vacina
Vários países já pensam no retorno presencial. Alguns que realizam educação à distância, após o pico da pandemia, tentaram voltar ao presencial e recuaram (Coreia e França, por exemplo). Avaliam que os riscos só diminuirão de forma efetiva com a vacina, mas deverão fazer novas tentativas quando houver menos infectados com o vírus e os riscos forem menores. Mas algumas experiências de retorno presencial antes da vacina com uma série de cuidados já começam a acontecer efetivamente na Nova Zelândia.

Essa pesquisa foi feita entre os dias 07 e 09 de junho de 2020.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Paulo Freire - Um legado incrível de um grande educador


Paulo Freire
 Frank Viana Carvalho
Mesmo sendo uma referência mundial na educação, Paulo Freire é incompreendido em seu país natal. Se Paulo Freire fosse de fato estudado, compreendido e utilizado, a educação brasileira estaria décadas à frente do que está hoje. Seu conceito de que a educação é um caminho para a emancipação, transformação, progresso individual e social está na própria base da educação, ideias preconizadas no iluminismo pelo grande pensador Jean Jacques Rousseau na obra O Emílio, e na virada do século XIX para o XX pelo respeitadíssimo educador e filósofo John Dewey. Já escrevi neste blog muito sobre Paulo Freire, mas retorno a ele neste momento em que sua obra é equivocadamente colocada em cheque.

Paulo Freire desenvolveu uma pedagogia crítica centrada no estudante, que vai muito além das metodologias, com princípios fundados no diálogo entre docentes e discentes e no valor da educação como ferramenta para a emancipação. 
O sucesso de Paulo Freire é completamente merecido. Ele é uma referência na educação mundial. Que tal aprender um pouco mais sobre ele?
No início da década de 1960, num Brasil com uma taxa de 40% de analfabetismo, uma das grandes realizações de Freire foi o projeto que coordenou na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, na alfabetização de adultos (hoje chamada de EJA). Utilizando seu método inovador - um método sintético unido a uma proposta de reflexão dialógica -, ele conseguiu a proeza de alfabetizar 300 adultos em três meses (a maioria em 45 dias).
Faço aqui um pequeno paralelo antes de continuar falando deste grande educador. Em fins da década de 1990 e início dos anos 2000 participei do Programa Alfabetização Solidária como formador de alfabetizadores numa parceria entre municípios da Paraíba e a faculdade onde eu trabalhava como coordenador de cursos superiores. Aproveitando a experiência e meus conhecimentos pedagógicos, eu mesmo atuei como alfabetizador de adultos (EJA) em São Paulo. Assim, como educador e alfabetizador, utilizei muito da proposta freiriana, unida aos avanços da metodologia da aprendizagem cooperativa (meu campo de pesquisa e publicações). O sucesso dos alfabetizandos era notável e isso ocorria em pouco tempo. Posso afirmar sem sombra de dúvida que, com a metodologia adequada e empenho dos estudantes, é possível alfabetizar em poucos meses na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Voltando a Paulo Freire e ao seu método, fica bem claro que ele buscava não só a base da alfabetização que era a formação de palavras e expressões e a leitura e compreensão, mas visava ao mesmo tempo à interligação do processo ao seu cenário, à sua conjuntura e à sua situação estrutural. O educando percebia que as palavras tinham conexão com o contexto social e cultural. Logo, sua educação visava à reflexão e conscientização que possibilitavam caminhos para a emancipação individual. E ao incentivar ações de parceria e cooperação, ele estava indicando caminhos de crescimento coletivo e comunitário.
Ele via a educação numa perspectiva filosófica: o educando assimilaria os conteúdos e conceitos estudados fazendo uso desta prática dialética com a realidade. E isso ocorreria em contraposição a outro tipo de educação, que ele via como dominadora, alienante e mantenedora do status quo: uma educação sem diálogo, onde os estudantes apenas recebiam passivamente os conteúdos dos professores - como uma conta que recebe depósitos -, daí denominada por ele de educação bancária; uma educação só voltada à técnica e à repetição vazia; uma educação sem reflexão e por isso alienante; uma educação mantenedora do status quo - manteria o educando com poucas perspectivas de progresso individual e social -, sobretudo nas classes mais desfavorecidas; uma educação que não permitia ao aluno estabelecer seu próprio caminho; uma educação que tinha interesse no silêncio e na passividade. Enfim, Freire propunha outro caminho e logo o país estava diante de duas propostas completamente distintas. 
Freire entre os grandes na Suécia

O caminho de suas ideias parecia destinado ao sucesso, no entanto, com as mudanças trazidas pela Ditadura Militar, incompreendido, Paulo Freire sofreu perseguição política. Documentos da Secretaria de Segurança Pública mostram que os militares consideravam Freire um “homem notoriamente ligado à política esquerdista”, que “vinha comunizando o Nordeste através do seu método de alfabetização de estilo revolucionário”.
Mas o que parecia a mais dura prova para o educador, se transformou em sua maior realização, pois suas ideias ganhariam o mundo. Após mais de setenta dias de prisão em 1964, teve que deixar o país e seguiu para a Bolívia, depois para Chile, Estados Unidos e Suíça. Escreveu, deu aulas, palestrou, ganhou o mundo.
Finalizando este post, enfatizo que os países mais avançados do mundo a partir do momento em que o conheceram, jamais negaram a importância, a inovação e o avanço que representam as ideias de Paulo Freire e continuam estudando e se aprofundando em seus conceitos. É sábio e é vanguardista adotarmos essa posição e seguirmos este mesmo caminho.

Não existe tal coisa como um processo de educação neutra. Educação ou funciona como um instrumento que é usado para facilitar a integração das gerações na lógica do atual sistema e trazer conformidade com ele, ou ela se torna a ‘prática da liberdade’, o meio pelo qual homens e mulheres lidam de forma crítica com a realidade e descobrem como participar na transformação do seu mundo”. (FREIRE, 2002, p. 15)
“ [É preciso] criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita, no fundo, da mesma forma reacionários, que se julgam proprietários, os primeiros, do saber revolucionário, os segundos, do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar também. [...] para mim, o caminho da superação daquelas práticas está na superação da ideologia autoritariamente elitista; esta no exercício difícil da virtude da humildade, da coerência, da tolerância, por parte do ou da intelectual progressista. Da coerência que vá diminuindo a distancia entre o que dizemos e o que fazemos”. (FREIRE, 1993, p. 80).

Aqui apenas um pouco do muito que Paulo Freire representa. Preferi apresentar em números e fatos:
- Suas ideias e propostas estão no currículo da formação de professores das mais prestigiadas Universidades de todo o mundo, de Harvard a Cambridge, de Oxford a Sorbonne, de Tóquio à Melbourne.
- Recebeu o prêmio da UNESCO de Educação para a Paz em 1986.
- O terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo inteiro.
- Autor do único livro (de um autor brasileiro) mencionado entre as cem obras mais citadas no mundo: Pedagogia do Oprimido.
Mural na Universidade do Chile homenageando Paulo Freire

- Único autor brasileiro entre os cem mais citados no Google Scholar 2016.
- O brasileiro mais homenageado da história recebendo o título de Doutor honoris causa em 35 Universidades do Brasil e do mundo.
- Cidadão honorário de diversas cidades brasileiras.
- Condecorado 24 vezes com medalhas, comendas e prêmios em vários países.
- Convidado oficial de 54 países dos cinco continentes.
- Homenageado com estátua em Estocolmo, capital da Suécia.
- Em 13 de abril de 2012 foi sancionada a Lei nº 12.612, que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira.
- Segundo uma pesquisa envolvendo três estados brasileiros, Paulo Freire é o nome de escola mais comum.
- Uma escola pública independente de Holyoke, Massachusetts, Estados Unidos, nomeou-se "Paulo Freire Social Justice Charter School", e isso foi aprovado pelo Estado em 28 de fevereiro de 2012.

Referências
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 22ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança; 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1993.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Palestra e Workshop com os Gestores Educacionais de Itapevi-SP


No evento “Liderança e Gestão Democrática nos Desafios da Modernidade” desenvolvido pela Secretaria de Educação através do Atelier do Saber, em novembro e dezembro de 2017, tive o privilégio de apresentar aos Gestores Educacionais de Itapevi-SP as seguintes palestras/workshops:
Inteligência Emocional, Mudanças e Superação dos Desafios na Administração Pública”;
Gestão de Pessoas - Mediação e Resolução de Conflitos”; e
Trabalho em Equipe: Compartilhar, Cooperar e Trabalhar em Equipe”.
Foram momentos agradáveis de interação, descontração e muita aprendizagem, onde pude compartilhar conhecimentos técnicos, educacionais, científicos, humanos e relacionais. Também compartilhei experiências e vivências dos meus 17 anos de atuação na Gestão Escolar.
Fica aqui registrado o meu agradecimento à equipe diretiva do Departamento de Educação do Município de Itapevi.





segunda-feira, 19 de junho de 2017

O atual momento político, social e educacional do Brasil


Minha Filosofia e Reflexões sobre o atual momento político, social e educacional do Brasil

Uma visão das possibilidades da Educação no Brasil

Como filósofo e educador, é para mim inevitável ver a educação pelo prisma teleológico, da finalidade última e dos propósitos. A grande maioria dos educadores de nossa época tem se preocupado mais com a ação do que com o progresso, mais com os meios do que com os fins. São incapazes de avaliar as principais questões sobre o propósito. E infelizmente a formação, habilitação e capacitação profissional dos educadores, muitas vezes voltada unicamente aos conteúdos técnicos, raramente habilita-os para a solução deste problema. E a grande verdade é que poucos líderes educacionais estão genuinamente preocupados com os grandes temas educacionais porque eles não possuem ideias claras sobre o significado da educação. O foco excessivo nos métodos, a preocupação com os meios em detrimento dos fins, e a ênfase unilateral nas questões políticas e o equilíbrio orçamentário têm incapacitado vários líderes para o grande diálogo público sobre a finalidade e o propósito da educação. Há uma forte necessidade de preparação de nova linhagem de profissionais educadores que sejam capazes de enfatizar e manter o pensamento no propósito e de pensar sobre o que estão fazendo e por que estão fazendo. Será que são capazes de encarar as perguntas mais importantes da educação: “Por que educamos dessa forma? Com que propósito e finalidade? Que valores queremos de fato ensinar? Nossos alunos estarão integralmente preparados para os desafios da vida em sociedade?”
Há muitas possibilidades na educação brasileira e com as medidas e decisões inteligentes podemos sair do atraso e avançar muito em pouco tempo. Inicialmente é necessário ter clareza na formação e preparo dos docentes. São necessárias mudanças na formação dos professores, com ênfase em finalidade e propósito, competências e valores. Igualmente são necessários enfoques em modernas metodologias de ensino e currículos voltados ao perfil do egresso em consonância com as transformações e progresso da tecnologia da informação.
De igual forma, hoje há excessiva discussão sobre temas periféricos, sobre problemas e suas derivações e pouca ênfase nas propostas que trazem soluções que, em grande medida, já ocorrem em lugares específicos.
Por exemplo, temos várias escolas públicas que elevaram o aprendizado dos estudantes no interior do Ceará (Sobral), São Paulo (Itápolis) e de Santa Catarina (Joinville) com corretas medidas pedagógicas e metodológicas, a despeito de recursos financeiros reduzidos.
É preciso enfoque em ações práticas nas redes públicas de ensino, a semelhança do que já é feito em países como Finlândia e Dinamarca, onde as principais medidas não estão ligadas a recursos financeiros, mas práticas efetivas, tais como gestão do ensino e da aprendizagem por meio de projetos educacionais, protagonismo dos estudantes e educação centrada no aluno, que são fáceis de serem implementadas e adaptáveis aos contextos locais.
É necessário valorizar a carreira docente através de medidas concretas e progressivas: o aumento gradual do piso nacional do magistério; a obrigatoriedade do plano de carreira nos estados e municípios - atrelados à formação continuada, avaliação periódica e permanência na rede pública; incentivos inteligentes às redes e aos professores na promoção da aprendizagem dos estudantes.
A formação continuada dos docentes precisa e pode ser uma ferramenta de melhoria do IDEB, pois a contínua atualização em estratégias metodológicas, processos de avaliação e projetos educacionais têm feito a diferença em municípios que conseguiram melhorar os indicadores educacionais.
Enfim, as propostas e metas do PNE são alvos a serem buscados com diligência e é necessário pessoas de visão educacional, preparo técnico e conhecimento do sistema para fazê-las avançar.


O momento social e político e a polarização nas Redes Sociais
A sociedade brasileira contemporânea vive um momento de polarização e, em certa medida e em certos grupos, de radicalização. Não acredito que as redes sociais criaram esse clima, mas certamente elas potencializaram essas tendências, pois atuam como uma caixa de ressonância onde os algoritmos dessas plataformas envolvem, cercam e isolam os usuários de acordo com pessoas, ideias, modelos paradigmáticos, produtos e coisas que o programa interpreta como ligadas ou relacionadas à visão de mundo de cada pessoa em particular. Embora esses algoritmos passem por mudanças de tempos em tempos, elas cada vez mais enclausuram os usuários em bolhas ainda mais herméticas, onde os usuários e seus influenciadores, pensando falar para todos, falam somente aos seus pares próximos. O facebook, por exemplo, é uma bolha, uma caixa, uma caverna diria Platão. Será que dá para sair desta caverna e ver novamente o mundo real? Ou o mundo real transformou-se nessa caverna-bolha digital? Percebo que essa polarização da sociedade brasileira leva cada vez mais as pessoas a se sentirem perdidas com tanta agressividade que inundou as redes sociais. São posts que incentivam a polarização da sociedade ao invés do diálogo e da busca da harmonia. Sei que há muitas exceções. Contudo tudo isso parece uma corrida rumo ou em meio à insanidade. Talvez muitos, quiçá estejam todos enlouquecendo coletivamente. Neste momento vale a pergunta: Como nós, educadores, filósofos e outros pensadores podemos ajudar as pessoas a encontrarem caminhos de compreensão, progresso, tolerância e respeito ao outro, enquanto o mundo digital que elas frequentam as bombardeiam com posts cheios de palavras ou demonstrações de incompreensão e intolerância, ódio e radicalização, além de posts inúteis, fúteis ou 'nonsense'?
Ora, se o algoritmo da rede social de amizades, ou os grupos fechados de mensagens não têm sido capazes de conduzir as pessoas à uma sociedade harmoniosa, que preserve os valores que nos são tão caros ao mesmo tempo em que avança rumo ao futuro desconhecido, cabe-nos como pensadores do hoje e do amanhã apresentar caminhos construtivos e projetá-los de forma consciente nos espaços digitais. Cabe-nos também incentivar as pessoas a passar mais tempo fora dessa bolha digital e gastar seus talentos e recursos de forma positiva encontrando o outro em ações de ajuda ao próximo, solidariedade, compreensão e acolhimento. Ajudá-los a valorizar sua família, seus amigos, e dedicarem esforços na construção de uma sociedade mais justa e democrática, na realização de seus projetos e seus sonhos.


Minha Filosofia
Somos todos iguais e diferentes. Iguais enquanto seres humanos com nossos talentos e habilidades, virtudes e defeitos, forças e fraquezas. Diferentes em nossa personalidade, aptidão intelectual e caráter. Diferentes no reconhecimento das oportunidades e especialmente na capacidade de nos valermos delas. Mas estas diferenças não nos diminuem nem nos aumentam – elas devem nos aproximar, nos fazer olhar o próximo com compreensão e solidariedade.
Estou certo que o valor das pessoas não está nos seus talentos, na sua inteligência, forças, riquezas, poder, posição ou condição física. Mas com certeza na sua capacidade de ajudar os outros e a si mesmo a crescer como ser humano e entregar-se a causas nobres, de lutar por elas e de viver com entusiasmo. O valor de um homem também está diretamente ligado aos valores que ele humildemente abraça, buscando andar de acordo com os caminhos da virtude e do bem, aceitando que a vida é muito mais do que vemos, mais do que sabemos e mais do que sentimos.
Non est oppositio inter scientiam et fidem - Não existe oposição entre a ‘Ciência’ e a ‘Fé’, são complementares e necessárias. Não gosto de rótulos ao me definir, pois meu amor pela filosofia, pedagogia e teologia me fez buscar o melhor e mais sábio nos caminhos que percorri. Assim, minha filosofia de vida é fruto de minhas experiências, estudos, aprendizagens, e de minha herança e formação cristã: a vida é um dom divino especial.
Sou a favor da vida e contra o aborto - apoio a legislação hoje vigente sobre o tema. Sei que para muitos esse é um assunto delicado e sensível, e creio que há um leque de ações possíveis nessa área da saúde e da ética que devem ser continuamente estudadas, refletidas, analisadas e trabalhadas.
Acredito na meritocracia de forma equilibrada, pois tenho por certo que o peso da origem social influencia diretamente nas condições em que se pode aproveitar as oportunidades, pois mesmo nos países democráticos mais desenvolvidos, não há posições vantajosas para todos. Logo, deve haver um equilíbrio entre meritocracia e justiça social. Acredito que o sistema de cotas deva ser regulado por leis temporais, para a análise de sua efetividade de tempos em tempos. Nos Estados unidos, onde esse sistema nasceu, há estudos que comprovam que as cotas raciais beneficiaram a classe média negra, ao invés dos negros pobres[1]. Sou a favor de cotas sociais, e já fiz essa defesa em artigos publicados desde 2002[2]. Mas mesmo essas políticas também devem seguir critérios de orientação profissional e avaliação cíclica, para que não se transformem em políticas de cooptação dos desfavorecidos para apoio político partidário.


Ideologias?
Embora como educador e filósofo político, eu entenda as aflições e angústias dos idealizadores do projeto Escola sem Partido, não sou favorável às medidas por eles sugeridas. Numa análise contemporânea, em grande medida a Academia (Ensino Superior) se inclinou em direção às ideologias e dogmas da esquerda – isso não só no Brasil, mas em praticamente todo o mundo nas profissões ligadas às humanidades. E essa não é uma percepção intuitiva, é um fato já pesquisado e demonstrado empiricamente pelos pesquisadores americanos Neil Gross e Ethan Foss[3]. Com isso, parte da formação dos novos profissionais e, entre eles, dos docentes, pode ter sido influenciada por paradigmas unidirecionais e não plurais. É lógico que há docentes que confundem seu papel e, aproveitando da audiência cativa que o sistema escolar lhes oferece, agem como doutrinadores de vieses ideológicos que eles aceitaram como corretos, ao invés de, numa demonstração de competência e maturidade profissional, apresentarem pedagógica e didaticamente os vários pontos de vista e construções que constituem o pensamento humano. Seria uma utopia desejar que os docentes apresentem aos alunos os diversos lados das questões políticas, socioculturais e econômicas, abstendo-se de imporem a sua própria opinião aos alunos?
Aprofundando a questão, várias reflexões se colocam a partir desse momento nas duas principais perspectivas.
Será que existe de fato a figura do professor doutrinador? Se sim, surge a  pergunta: o que deve a sociedade fazer nesse caso? Permitir que esses docentes promovam em sala de aula seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias? Que constranjam, favoreçam ou prejudiquem alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas? Que façam propaganda político-partidária, ou incitem os estudantes a participar ou não de manifestações, atos públicos e passeatas – numa clara demonstração de correspondência ao viés ideológico do docente? Seriam essas questões válidas?
A despeito dessas questões, não acredito que criar uma lei é o caminho para estabelecer uma concepção plural de ensino. Essa medida seria inconstitucional, pois limita a pluralidade de ideias e liberdade de expressão e haveria uma contradição com o artigo 205 da Constituição Federal que estabelece a liberdade de ensinar e de aprender. Além disso, é subjetiva a análise do que é doutrinação ideológica, religiosa ou moral, haja vista a grande diversidade de pensamentos na sociedade moderna. Muito melhor seria a adoção de ações propositivas, isto é, ao invés de proibições às concepções ideológicas restritas e vinculadas a um determinado modelo, um claro incentivo a uma real pluralidade no ensino de ideias e concepções.
Isso posto, mesmo acreditando que este é um tema que mereça análise, há outros muito mais importantes que afligem o sistema educacional do nosso país. Por isso sou contra o 'Escola sem Partido'. Enfatizo, sou contra o projeto 'Escola sem Partido'.
Vale observar que meu ponto de vista é influenciado por minha formação e minha atuação como educador e gestor da educação, onde procuro ser reflexivo e ao mesmo tempo, objetivo, prático e pragmático. Prefiro o enfoque da solução. 
É válido considerar que a subjetividade presente na interpretação ou aplicação da proposta pensada por eles resultará no futuro em ações que representarão vigilância ou pressão sobre os docentes e isso não é bom, na verdade é péssimo. Afastará bons profissionais da carreira docente, num país que historicamente não valoriza os educadores. 
Voltando aos americanos Neil Gross e Ethan Foss, eles afirmam que é contraproducente a simples crítica e discordância da ação e influência dos esquerdistas na formação acadêmica, pois isso leva a se conseguir o contrário do que preveem seus críticos: o ensino superior se tornará ainda mais uma bolha da esquerda.
Vale a observação de que os bons docentes no limite de seus conhecimentos e atuação são sempre abrangentes em suas proposições.
Alguns que leem essa postagem dirão que existem maus profissionais na educação. Sim, mas vale lembrar que eles não pertencem a um único espectro ideológico. Como não existe vácuo ideológico, ideologias ocupam o lugar de outras ideologias e paradigmas se sucedem continuamente.

BNCC
Estamos em tempos de análise para aplicação dos trabalhos da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) no Ensino Fundamental e Médio. Sendo a base um documento de caráter normativo, ela define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. No caso do Ensino Fundamental, a construção permitiu um texto que contemple a formação de conceitos, procedimentos, valores e atitudes. E estamos também no momento de reflexões e análises sobre a BNCC do Ensino Médio. Sendo que o MEC e as autarquias públicas dirigem e coordenam essa discussão (MEC, CNE), porque não buscar uma discussão que também aborde as soluções, questionamentos, impasses e dilemas levantados pela excessiva ideologização no ensino? Nesse caso, cabe aos gestores públicos abrir espaços de discussão que são próprios da BNCC e colocar o problema, sugerir e ouvir sugestões. Seriam caminhos propositivos e não unidirecionais.


Educação Política?
O que ocorre em outras partes do planeta? Ao fazer parte do meu doutorado na França, meus  filhos estudaram no sistema público educacional francês. É muito interessante destacar que a França é amplamente reconhecida como um país plenamente democrático. O que muitos não sabem é que no Ensino Médio de lá existe uma disciplina com conteúdos que são espécie de somatória do que houve aqui em OSPB e Educação Moral e Cívica. Destaco esse ponto, porque OSPB (Organização Social e Política Brasileira) como disciplina foi proposta em 1962 pelo educador Anísio Teixeira, e Educação Moral e Cívica, proposta pelos governos militares. As duas conviveram lado a lado durante muitos anos. Não temos nada no currículo voltado especificamente a esta formação social e política. Mas sem dúvida, mais importante do que estabelecer uma nova disciplina ou conteúdos no currículo, devemos pensar qual o propósito e finalidade dessa inserção e seu significado na formação básica. Sendo que há uma clara tendência de estabelecer parâmetros de educação religiosa nas diretrizes curriculares, porque não termos também uma educação política e social?





[1] SOUZA, Jessé. A visibilidade da raça e a invisibilidade da classe. In: SOUZA, Jessé. (org). A invisibilidade da desigualdade brasileira. Belo Horizonte. Editora: UFMG, 2006.

[2] CARVALHO, Frank Viana. Cotas para os excluídos. Pátio Revista Pedagógica. Ano VI, nº 22 julho/agosto 2002. Editora Artes Médicas Sul Ltda.

[3] COHEN, Patricia. Professor Is a Label That Leans to the LeftThe New York Times. 17/01/2010. Uma versão deste artigo aparece impressa em 18 de janeiro de 2010, na página C1 da edição do The New York Times. A tradução literal: “Professor é um rótulo que se inclina para a esquerda”. 

domingo, 4 de junho de 2017

UNASP - As Vindiciae Contra Tyrannos e o Direito de Expressão da Fé

Este ano marcam as comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante e vários eventos ligados ao tema têm sido realizados em nosso país. Aproveitando o ensejo e a temática, palestrei e lancei em 04 de maio as“Vindiciae Contra Tyrannos - O Direito de Resistir” no UNASP, campus Engenheiro Coelho. Nesta palestra o destaque foi a questão da origem do conceito de Liberdade Religiosa e a conquista deste direito no mundo ocidental.


Alunos dos Cursos de Direito e História assistiram e fizeram várias perguntas.

Professores Alessandro e Augusto Darius, meus anfitriões no UNASP-EC.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Política e Ética - Simpósio no IFSP campus São Roque

Uma boa ocasião para refletir sobre a Política atual à luz das Vindiciae foi o Simpósio de Ética e Política Contemporânea realizado no Instituto Federal de São Roque no dia 18 de abril de 2017. Palestrantes: Dr. Rogério de Souza Silva, Dr. Sandro Heleno Morais Zarpelão e Dr. Frank Viana Carvalho.
Agradecimentos a todos os participantes, pela atenção, interação, perguntas e carinho para com os palestrantes. Foi de fato um evento que enriqueceu a cultura acadêmica e cidadã no campus do  IFSP São Roque. O evento foi aprovado e recomendado pela Coordenaria de Extensão do Instituto.




















Dr. Rogério de Souza Silva. Professor do IFSP SRQ. Graduado e Mestre em Ciências Sociais pela UNESP e Doutor em Sociologia pela UNICAMP. É autor da obra “Cultura e violência: autores, polêmicas e contribuições da Literatura Marginal” (Annablume Editora, 2011).
Dr. Sandro Heleno Moraes Zarpelão. Professor do IFSP SRQ. Bacharel em Direito e em História (UEL, Londrina), Mestre em História (UEM, Maringá) e Doutorando em História Social pela USP.

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