quinta-feira, 15 de setembro de 2011

7/7/77

O dia era sete de julho de 1977 e eu estava assentado na areia lá pelas duas da tarde na praia de Santa Mônica em Guarapari – ES.


A data é marcante para mim pelo que aconteceu neste dia. Eu havia recebido de presente uma bola de meu tio (Antonio é o nome desse tio, casado com a tia Rosa, irmã de minha mãe). Após o almoço, eles se deitaram para descansar – afinal, estavam de férias curtindo o litoral capixaba. Eu, um menino de onze anos, estava aflito e ansioso para experimentar meu novo presente com alguém que pudesse brincar comigo. Peguei a bola e fui para a praia, distante uns duzentos metros do apartamento (chalé) onde estávamos hospedados.
Praia de Santa Mônica em Guarapari - ES

Depois de observar o mar por vários minutos, comecei a chutar a bola na direção das ondas e em seguida, entrava no mar para buscá-la.

Quem conhece a praia naquela região, sabe que o mar ali não afunda abruptamente (pelo menos não nos primeiros metros) e eu fui entrando mais e mais, pois dava pé.

Cada vez eu chutava a bola mais distante em direção ao mar e ia atrás dela, até que foi necessário fazer isso nadando. Alcançando a bola, eu a abraçava e voltava batendo os pés até onde dava pé e ficava ali, como que descansando do esforço.

Voltava um pouco mais para o raso e repetia a experiência.

Mas o vento daquele horário soprava da costa para o mar e num chute bem forte, a bola, com a ajuda do vento, foi arremessada bem distante, em um ponto posterior ao da formação visível das ondas. E lá fui eu atrás da bola, nadando em um trecho que não dava pé. Depois de algum tempo nadando e vendo o vento levar a bola mais e mais, percebi que algo estava errado – eu não conseguia chegar aonde a bola estava. Mas eu me animava com a ideia de que ao alcançá-la, eu a abraçaria e teria forças para voltar até a praia. Quanto mais eu ia na direção dela, mais o vento a empurrava mar adentro.

Já me sentindo cansado, mas não querendo perder o presente precioso, resolvi ‘sentir’ a profundidade do mar naquele trecho. Parei de nadar e deixei o corpo magrelo afundar para tocar o fundo do mar.
Em foto do dia 07 de julho ao lado de minha tia e seu bebê

Então deixei meu corpo afundar e afundar, mas para minha surpresa e aflição, nada de sentir os pés tocando o fundo. Aqueles poucos segundos pareceram uma eternidade e desisti da ideia (de encostar os pés no fundo). Subi assustado e olhei em direção a bola – ela parecia estar ainda a uns cinco metros de distância e se afastando – e então olhei para a praia e me apavorei: eu a avistava muito distante e de fato ela estava.

Assustado, uns poucos segundos de indecisão ainda se passaram até que eu decidisse ‘desistir’ de tentar alcançar a bola.

Voltei temeroso e, por mais que me esforçasse, o cansaço já não me permitia nadar com força e velocidade. Senti medo de não conseguir e nadei o máximo que pude para evitar que me afogasse. Fiz meus últimos esforços e finalmente cheguei no trecho onde as ondas começavam a se formar. Isso renovou minhas forças e quando pude finalmente sentir que dava pé, caminhei quase sem forças para a praia onde praticamente caí no chão, sem forças.



Uma semana depois, já em casa.
 Mas as esperanças de ainda ver a bola voltar me fizeram assentar na areia e virar-me para o mar. Naquele momento vi que a bola era (agora) apenas um pequenino ponto branco se afastando mais e mais até que sumiu.

Quando voltei ao apartamento e contei aos meus tios o que havia acontecido, eles empalideceram. Sabiam que, por muito pouco, eu não tinha morrido naquele dia.


Dali em diante, não passou um único dia sete de julho sem que eu não relembrasse da minha traumática experiência. Em tempo – não sou místico e realmente não sei explicar essa coincidência (07/07/1977 ou 7/7/
77).

Um comentário:

Francisco Carvalho disse...

De repente, me perguntei: o que pode ter acontecido em 7/7/77? Fui pro Google e descobri você e sua história da bola. Já passei apuros no mar.

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