terça-feira, 15 de julho de 2008

Neo-ateus

Os neo-ateus têm tentado apresentar argumentos que, segundo eles, são suficientes para demonstrar a não existência de Deus e os malefícios da religião. Entretanto, seus argumentos demonstram pouco conhecimento de filosofia da ciência e especialmente, de metafísica. O grande problema dos neo-ateus, dos quais Dawkins e Dennett são expoentes, é acreditar que ‘ciência é igual a verdade’, quando na realidade, ‘científico’, é apenas o que segue determinados padrões metodológicos aceitos pela comunidade científica de uma determinada época. Vale observar que a própria ciência se encarregou diversas vezes de descartar aquilo que era tido como verdade científica. Ao criticar a religião, acabam agindo como os maus religiosos – crêem que apenas com eles está a verdade. Como dizia Albert Einstein: “o homem de ciência é um filósofo ruim”[1].

Em realidade, a maioria dos argumentos apresentados é contra a religião estabelecida. Vamos aos principais e um a um, observemos como carecem de uma análise crítica de maior profundidade.

Segundo Dawkins e muitos de seus correligionários, se não houvesse religião, não haveria nenhum homem-bomba, não ocorreriam as cruzadas, não haveria o 11 de setembro, nenhuma guerra entre Israel e os palestinos, nenhum conflito na Irlanda do Norte e esta lista poderia ser multiplicada. Em outras palavras, a religião trouxe e traz muitos malefícios para a humanidade. Para o leigo, o argumento pode parecer forte, mas não é.

Richard Dawkins desconsidera várias coisas e seu raciocínio acaba por ser simplista e volta-se mesmo contra a ciência, tão defendida por ele. Ele não leva em conta que o problema está na índole do homem, na sua natureza e não na religião. Desconsidera que o homem é capaz dos atos mais sublimes e honrosos, mas também das maiores crueldades e barbaridades.

Se aplicarmos o mesmo raciocínio à ciência, diríamos que sem ela não teríamos Hiroshima e Nagasaki (a bomba atômica), não teríamos as quedas dos aviões, os destrutíveis e poderosos armamentos, as minas terrestres, o tele-sexo, o buraco na camada de ozônio, o efeito estufa, o derretimento das calotas polares, a pedofilia alimentada pela internet e é claro, a lista também poderia ser ampliada.

O argumento de que o homem faz mau uso de uma determinada coisa não é em si, suficiente para negá-la. A análise precisa ser aprofundada e isso Dawkins não faz. É claro, isso contraria as suas teses.

Se não houvesse religião não teríamos muitas obras primas do renascimento, o exemplo de David Livingstone e Madre Tereza de Calcutá, a estátua do Cristo Redentor, estátuas gigantes de Buda, missionários que visitam as prisões e tratam dos doentes de AIDS na África[2] , vidas inteiras dedicadas a servir e ajudar o próximo...

O filósofo seria simplista se não considerasse que muitos interpretam os ensinamentos religiosos à sua própria maneira e fazem valer sua vontade e interesses em detrimento do benefício da maioria. É claro que o filósofo, mais do que outros, tem consciência do mal que muitos têm feito julgando agir em nome de Deus ou da religião. Contudo, o filósofo analisa a questão por um ângulo mais elevado e vê que a natureza humana é falha e a experiência continuamente evidencia isso. Essa é uma questão 'humana' e não da religião.

Mas o problema da investigação e análise simplista não é comum aos filósofos, pois estes estão acostumados a criticar suas próprias idéias, a ir além da superfície, a questionar em busca de outras respostas ou mesmo em busca de mais perguntas. Os filósofos não vêem problemas em revisitar seus próprios conceitos.

Outro dia falarei sobre outros argumentos dos neo-ateus.

[1] There is a God: how the world’most notorious atheist changed his mind. London: Harper Collin Publishers, 2007, p. 96.
[2] Revista Época, n. 443, p. 95.

4 comentários:

Cleiton Heredia disse...

A diferença entre um cientista e um religioso está na forma como cada um vê a verddade. O primeiro entende que ela é fruto de uma busca que nunca terá fim, já o religioso entende que já a possui de forma completa e, julgando-se dela possuidor, estabele os limites para que ela não avance além do seu entendimento.

Prefiro os filósofos que buscam a verdade, e não apenas um paliativo para seus medos, de forma que estão continuamente treinando para serem sempre bons céticos.

Ebenézer disse...

Ótimo texto!

Anônimo disse...

Essa de que está na índole homem, é um argumento covarde que escraviza a humanidade.
Nos seres humanos somos bons ou mal, devido a inclinações naturais, nos lutamos pela vida, e é o meio que nos torna oque somos, temos sim condições de ter uma sociedade sem fome sem doença sem guerra etc..., mas antes temos de deixar de pensar dessa maneira pequena, de que as coisas são assim mesmo.
Outra coisa essa esmola que se dá aos miseráveis, e uma vergonha isso e só para tapear a verdade, de que por de traz das cortinas existe grandes interesses nada nobres de poderes políticos, financeiros e religiosos.


"Não é demonstração de saúde ser bem ajustado
a uma sociedade profundamente doente. "

Bruno de Moura disse...

Primeiro que o neo-ateus não tentam demostrar a não existência de deus, mas sim que sua existência nunca foi evidenciada racionalmente, logo não faz sentido racional crer em um deus. A ciência pode se contradizer, na verdade isto só mostra como a comunidade científica está disposta a encontrar veracidade nos padrões naturais. Sua primeira objeção a Dawkins faz sentido. Também discordo que a religião é algo danoso por essência... há religiões que pregam a paz acima de tudo. Mas, dependendo da religião, pode-se levar a pensamentos extremistas.

Você pode ter motivos para acreditar em deus de natureza motivos emocionais... porque julga sentir sua energia e etc. Mas motivos racionais não temos.

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